À sombra do castanheiro

– Afinal, no passado domingo, depois do jogo da bola, não passaste por aqui com o Sanguessuga, como tinhas prometido. Ou eu pelo menos, assim o entendi...

– Peço-lhe mil desculpas, Tio Ambrósio! Mas aconteceu que, terminada a partida, e com a vitória dos nossos rapazes, e a consequente permanência no escalão dos melhores, o Sanguessuga não conseguiu ficar quieto. Tinha que festejar! Acredite que nem parecia ele, de tão contente que ficou! Eu nem
sabia que ele era assim derramado para as coisas da bola. De qualquer modo, o Tio Ambrósio havia de gostar de o ver a abraçar toda a gente, até os desconhecidos, e dizer que para o próximo ano ainda vai ser melhor. Até somos bem capazes de ser campeões!

– Coisas que se dizem, Carlos! Desabafar não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário! Mas tu, hoje, não vens ainda com essa na cabeça. Há coisas bem mais importantes na vida...

– Há, Tio Ambrósio! Mas também é certo que se nós levamos tudo muito a sério, acabamos num manicómio, ou em lugar assim parecido. Já bem nos bastam as agruras da vida e as contas a pagar ao fim do mês. Não acha?

– Cada coisa no seu lugar! Como nos sugere a Sagrada Escritura, há um tempo para tudo. Tempo para o trabalho e tempo para o lazer; tempo para falar e tempo para calar; tempo para reflectir e tempo para espairecer.

– É o que se passa connosco, Tio Ambrósio! Durante a semana é o nosso tempo de trabalhar de sol a sol, ganhando o pão de cada dia com o suor do nosso rosto. E vossemecê bem sabe que a enxada ainda continua a fazer calos! Ao domingo, depois de cumpridos os nossos deveres de cristãos baptizados e confirmados, é o nosso tempo de convívio, ou mesmo de divertimento. Eu sempre tenho ouvido da sua boca que devemos procurar viver a virtude da alegria. Ou agora a alegria já não é uma virtude?

– Essa alegria de que tu falas é sempre uma virtude, Carlos!

– Pois se vossemecê estiver disposto a isso pode vir treinar essa virtude connosco. Ou já se esqueceu que, cá na terra, continuamos a festejar os santos populares? Ontem e hoje, no largo do cruzeiro, novos e velhos participam nas fogueiras do Santo António. E até ao fim do mês com a celebração do São Pedro, não vai haver sábado nem domingo sem divertimento a preceito, tudo segundo as nossas regras, que são as da consideração pelos mais velhos, da defesa dos mais pequenos e do respeito por todos.

– Como vai ser isso, Carlos?

– O melhor é ir ver, Tio Ambrósio! Mas tenho quase a certeza que o Sanguessuga nos vai pregar uma das dele, aparecendo mais uma vez vestido de Santo António, e se calhar até tendo decorado algum dos seus sermões. Eu não lhe posso adintar muito, mas parece-me que o nosso amigo Manuel das Chagas se vai valer do hábito franciscano do Santo para dar umas arrochadas no costado de alguns, que bem as merecem por sinal.

– Nada de agressões, que o Santo é pacífico!

– Mas não pode deixar de dizer a verdade, Tio Ambrósio! Segundo reza a história, Santo António de Lisboa, que por sinal passou uma boa parte da sua vida em Coimbra, onde fez os seus estudos superiores no mosteiro de Santa Cruz, foi um dos maiores lutadores contra a heresia, especialmente o sul de França. O nosso amigo Liberato, que ainda há pouco andava a ler Tio livro sobre a vida do Santo, disse-me que, nas suas pugnas com os herejes, não era nada meigo, arreando forte e feio em alguns que andavam arredados da verdade. É bem possível que o Sanguessuga pegue neste aspecto da actividade de Santo António e venha denunciar alguns dos comportamentos menos dignos que todos os dias vemos por aí, mesmo em gente que, pelos lugares que ocupa, devia dar o exemplo não só aos mais novos, mas a todo o povo em geral.

– Logo veremos como se vai sair dessa o Manuel das Chagas...

– O Tio Ambrósio faça de conta que eu não lhe disse nada. Até pode acontecer que ele mude de ideias à última hora e, em vez de sermão, faça outra comédia qualquer.

– Um sermão é uma coisa, uma comédia é outra, Carlos!

– Ali, na boca do Sanguessuga, mesmo um sermão não deixa de ser comédia, Tio Ambrósio! Aquilo é uma representação. Mas não se apoquente, que o rapaz não vai ultrapassar as marcas do respeito pelas pessoas e da dignidade do tema escolhido.

– A ver vamos, Carlos! Logo à tardinha lá estarei convosco.

– Não se vai arrepender, Tio Ambrósio!

– Eu nunca me arrependo do tempo que gasto no convívio com os amigos. Vai lá com Deus, Carlos!