À sombra do castanheiro

– Afinal o estado de saúde da nossa democracia deixa muito a desejar, Tio Ambrósio! Já nem os médicos se entendem! Sempre que conseguem atinar com uma doença e prescrevem o respectivo medicamento, logo aparece o sintoma arreliador de outro mal ainda pior.

– Eu não seria tão pessimista, Carlos! É verdade que, a avaliar pelas notícias que cobrem as primeiras
páginas dos jornais, temos aí tarefa cabonde para várias equipas de cirurgiões, a trabalhar de dia e de noite e contando com feriados e tudo. Mas eu estou convencido que, passada esta onda devastadora, tudo acabará por serenar. Os pescadores de Buarcos costumam dizer que depois da tempestade vem sempre a bonança.

– Eu sei que é preciso botar algum tempero nesta diarreia informativa, porque os jornais e as televisões, na tentativa de conquistarem audiências, acabam sempre por exagerar os factos, apoiados em fontes por vezes pouco credíveis ou até mesmo suspeitas. Mas o Sanguessuga tem razão quando diz que as maleitas são tantas e de tão ruim qualidade que já não se curam com panos de água quente. É que isto são umas atrás das outras, Tio Ambrósio! Lá tivemos aquele intervalo da guerra no Iraque, em que os noticiários esqueceram as patifarias que por aí se fazem, mas agora é sangria desatada. Primeiro foi o caso daquele senhor ministro que teria estado envolvido em negócios pouco claros, de tal modo que a oposição partidária clamava a torto e a direito pela sua substituição. E o certo é que o nosso povo pagante ainda não está esclarecido sobre o destino de alguns cheques passados ao dito membro do governo, e muito menos sobre o carro de luxo que lhe foi dado não se sabe bem por quem e com que finalidade.

– O caso está a correr nos tribunais, Carlos! Não queiras ser tu a dar a sentença...

– Depois foi o outro senhor ministro que meteu os pés pelas mãos, quando chegou ao conhecimento público que tinha não sei quantas contas na Suíça. É verdade que o dito cujo tentou a sua defesa, afirmando que aos vinte anos já era titular duma caterva de prédios que recebera em herança. Pois é! Só que a quase totalidade das referidas propriedades valem muito menos que o lameiro onde eu semeio pasto para os vitelos! O povo pagante questiona-se e com razão, pois toda a gente sabe que quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem.

– Eu não posso afirmar nada, pois nada vi, Carlos! Mas se essas coisas são verdadeiras, acho muito bem que a justiça aplique o merecido castigo.

– E, como diz o Sanguessuga, ainda a procissão vai no adro! Não é preciso recordar-lhe o escândalo seguinte, com aquela senhora ex-presidente de município a raspar-se para o Brasil quando soube que era acusada de peculato, de administração danosa e de outros actos pouco abonatórios do seu bom nome. É verdade que o caso não foi julgado, e que, por isso, não podemos estar aqui a botar sentença. Mas o nosso povo repete a cada passo que quem não deve não teme. Ora bem! Ou a dita ex-autarca não confia na nossa justiça, ou então deve mesmo, pois o temor foi tal que se raspou antes que lhe metessem a mão em cima.

– Visto por esse lado, és capaz de ter alguma razão, Carlos! Mas eu não me precipitaria em julgamentos, pois nem sempre as coisas são o que parecem.

– Não me diga o Tio Ambrósio que os meretíssimos juizes estão todos equivocados quando declaram prisão preventiva para conhecidas figuras da nossa sociedade. Como é o caso deste último escândalo da pedofilia, em que, pelo menos à primeira vista, poderão estar envolvidos homens que todos tínhamos por respeitáveis e honestos.

– Que queres que te diga, Carlos?

– O que eu queria, Tio Ambrósio, o que o nosso povo queria é que houvesse por aí um remédio que curasse todos estes achaques e moléstias sociais, que atingiram
alguns membros do corpo nacional que todos exigimos que sejam inteira e completamente sãos. Como diz o Sanguessuga, a cura já não depende das mezinhas caseiras.

– Há certos males que só com operação de barriga aberta, Carlos!

– E não se corre o risco de o doente se ir abaixo das canetas depois da faca?

– Não, Carlos! Um corpo que se orgulha de estar vivo há mais de oito séculos, embora com algumas maleitas pelo meio, não se deixa sucumbir com facilidade. Eu acredito, como te disse, que isto não passa de uma rajada de vento que faz agitar a ramada da árvore. Mas as raízes são fluidas, e a árvore, mesmo abalada, vai permanecer de pé.

– Deus o oiça, Tio Ambrósio!