À sombra do castanheiro

– Diz-me cá, meu caro Carlos!

– Ao seu inteiro dispor, Tio Ambrósio! Estou a vê-lo preocupado. Que se passa com vossemecê?

– Nada do outro mundo. Mas a verdade é que esta semana me vi à brocha para entender alguns dos factos com que fomos confrontados, a avaliar pelos relatos que nos fizeram alguns dos mais credenciados meios de comunicação social. Antigamente eu lia só as "Notícias de toda a parte" do nosso "Amigo do Povo" e vivia, podemos dizer, tranquilo. Mas agora, com tudo aquilo que nos é colocado à consideração e propriamente diante dos olhos, eu não sei muito bem o que hei-de pensar.

– Está a referir-se ao caso de Felgueiras?

– Não concretamente, Carlos! Mas não digo que esse não seja um caso que nos dê que pensar! Será que, como o povo de lá nos quer fazer crer, a senhora dona Fátima é mesmo uma cidadã impoluta e verdadeiramente honesta?

– Enquanto não vir provas contra, eu sempre direi que se trata de uma cidadã no pleno uso dos seus direitos de liberdade, de fraternidade e de igualdade...

– Deixa-te de chavões, Carlos! Já me pareces o camarada das amplas, ou o seu natural e inofensivo sucessor, a repetir o disco das conquistas da classe operária, dos pequenos ou médios empresários, dos jovens agricultores de quarenta e mais anos; ou aquele senhor doutor de Coimbra, grão-mestre da maçonaria, a repetir sempre a mesma cantilena da tolerância, das virtudes cívicas e do altruísmo universal...

– Estou a ver que o Tio Ambrósio está mesmo convencido que a fuga da ex-autarca é declarado comprovativo da sua culpabilidade.

– Tu já me fazes lembrar certos e determinados jornalistas que pretendem que os seus entrevistados digam à força aquilo que lhes agrada. A eles, jornalistas, claro! Não vás por aí, Carlos!

– Desculpe, Tio Ambrósio! Eu estava apenas a tentar saber a sua opinião, porque, na passada semana, não chegamos a bem dizer a nenhuma conclusão.

– Os acontecimentos são como a fruta, Carlos! Vão amadurecendo aos poucos. De resto, neste pormenor da nossa vida pública, eu acabo por dar razão ao nosso amigo Sanguessuga.

– Falou com ele?

– Esteve aqui um dia destes a desenferrujar a língua e, dizia ele, a dar-me a sua modesta mas honrada opinião sobre todos estes casos que têm agitado as ondas do nosso pequeno mar da governação nacional e local.

– E que tal?

– Primário, meu caro Carlos! Contra a abalizada opinião do professor Marcelo, que afirma a pés juntos que a maioria dos nossos políticos, especificamente os autarcas, são pessoas honestas e de bem, o Sanguessuga, não sei por que ínvios raciocínios, declara que há um bom número deles que, no caso de virem a ser investigados a sério, teriam que se haver com a justiça...

– E não é verdade, Tio Ambrósio? Eu ainda esta manhã participei num aceso debate popular, com a intervenção do meu cunhado Acácio, do Liberato, e de outros cidadãos de boas contas, em que alguém afirmou que, se a judiciária investigasse tudo a pormenor e os meretíssimos juízes tivessem tempo para julgar
todos os casos, ou se esvaziavam as actuais prisões para receberem novos inquili-
nos, ou se abriam penitenciárias novas
de norte a sul do território nacional, sem esquecer as regiões autónomas insulares que também são gente com políticos de primeira apanha.

– Não fales assim da justiça, Carlos! Eu concordo que esta justiça tem montes de defeitos, sobretudo no que respeita à morosidade. Justiça fora de tempo não é justiça nenhuma! E a verdade é que muitos processos se arrastam ano atrás de ano, com os cidadãos à espera de sim ou sopas. No entanto, muito pior é quando o poder judicial cai na rua, como aconteceu em Felgueiras, não propriamente em relação à senhora dona Fátima, mas ao deputado Francisco de Assis, que ali se deslocou em missão de paz e bem...

– O Tio Ambrósio não se esqueça que Fafe é ali mesmo ao lado e que, por enquanto, ainda há quem cultive o marmeleiro para outros fins que não a marmelada. Por exemplo para demonstrar certos pormenores de justiça...

– E ando eu aqui a ensinar-te há não sei quantos anos que a violência só atrai violência...

– Tem razão, Tio Ambrósio! Mas o certo é que o coração do povo, como o de um filósofo de que vossemecê um dia me falou, tem razões que a razão da justiça desconhece. E contra factos não há argumentos.

– Valha-te um burro aos coices! Para não dizer coisa pior!