À sombra do castanheiro

– Hoje madrugaste, Carlos! Ainda a manhã não vem em Castela e já te vejo aí fresco que nem uma alface!

– É para que saiba, Tio Ambrósio! Cá o rapaz não é daqueles que se deleitam com uma manhã de sorna. Quando vem o tempo do calor, gosto de bater uma sesta, assim num local fresquinho. Mas pela manhã, mal os pássaros começam a chilrear na cameleira do quintal, vamos de acordar e de meter mãos ao que há para fazer.

– Mas hoje é domingo, Carlos! O trabalho fica para os outros dias...

– Esse é o meu princípio, desde a juventude! O Dia do Senhor é para um homem descansar das fadigas de uma semana repleta de afazeres. É um dia que devemos consagrar à oração comum, se possível participando na missa dominical, à visita aos doentes e a visitar os amigos, que a amizade também precisa de momentos de encontro para se fortalecer e criar raízes.

– Isso é que é falar, Carlos!

– Também não é só isto, Tio Ambrósio! Há trabalhos que nem o domingo nos livra deles. Por exemplo tratar os vivos, que eles são criaturas que precisam de sustento. Ou fazer o almoço para a família, que foi o que a minha Joana ficou a adiantar...

– Está certo, Carlos! Só que para fazer todas essas coisas não é preciso um homem levantar-se com o cantar do galo. Alguma coisa te levou a esta espertina.

– De facto, estive de noite a pensar, e lembrei-me de lhe vir pedir uma coisa.

– Se eu puder...

– É que, como vossemecê sabe, todos os anos em Domingo de Ramos, eu sou daqueles que gostam de levar para a missa das onze um ramo que se veja. Pode ser alecrim, pode ser oliveira. Mas, se possível, prefiro sempre o loureiro que, nesta altura do ano, está coberto de flores cheirosas. Ora acontece que o meu loureiro grande secou. Deve ter sido uma aragem que por ali passou, porque o do meu cunhado Acácio, que é na mesma correnteza, também não escapou à moléstia. Eu já plantei outros dois que, para o ano que vem, devem já florir na altura própria...

– Já entendi, Carlos! Pega aí nessa machada e esgalha à tua vontade. Até podes também cortar um ramo para mim, mas mais pequeno, que eu já não tenho idade para grandes espalhafatos. E, sendo assim, até vou contigo à missa das onze, porque é um grande prazer acompanhar-te. É verdade que eu gosto mais da missa da manhã. Mas há certas ocasiões, como o natal, a Páscoa e este Domingo de Ramos, que são propícias para o cumprimento de algumas tradições que não devemos perder. Ainda me lembro, quando eu era rapaz, de andarmos todos à disputa para ver qual é o que levava o ramo maior e mais florido. Muitos anos a nossa igreja era, neste domingo, um autêntico jardim. Porque, se os rapazes optaram por grandes pernadas de loureiros, as meninas faziam artísticos arranjos com verduras e flores, onde não faltava o cheiroso alecrim ou mesmo uma ponta de alfazema. Era um aroma que, ainda hoje, seria capaz de reconhecer à distância...

– Neste caso, além de litúrgico, é também um uso que, como vossemecê disse, não devemos deixar que se perca. Faz parte da nossa cultura ou, como diz o Liberato, do nosso património ancestral. Este e outros. Por acaso tive pena que o Tio Ambrósio não tivesse ido connosco, no sábado passado, à procissão dos candeeiros a tentúgal.

– Já conheço, Carlos! Se calhar ainda tu não tinhas nascido e já eu participava nessa e em outras cerimónias semelhantes. É bonito de se ver!

– Tanto eu como o Sanguessuga e o Manuel Lopes, que ali nos deslocámos a convite do nosso compadre Craveiro, ficámos de boca aberta. Ele são centenas e centenas de candeeiros de três bicos, daqueles com que antigamente, velávamos os defuntos! São, por isso, milhares de pequenas luzes, ao longo das ruas da antiga vila, acompanhando a procissão do Senhor dos Passos. Há deles grandes, médios e pequenos. Fiquei deliciado sobretudo com os mais prequenos nas mãos das crianças. deste modo tenho quase a certeza de que aquela tradição não vai morrer pelo menos pelo espaço de três ou quatro gerações.

– Como vês, meu caro Carlos, nem tudo é mau neste mundo. A par das guerras, dos ódios, dos actos de corrupção e de toda a malvadez que por aí anda à solta, há também estes momentos que nos dão a garantia de beleza, de interioridade, de reflexão e de silêncio. Todos estes gestos são ocasião de crescimento para o homem.

– Então vamos crescer, Tio Ambrósio! Eu levo aqui quase metade do seu loureiro que, à porta da igreja, irei distribuir por todos os que se tiverem esquecido do significado deste dia. E vossemecê vai acompanhar-me para explicar a doutrina a algum mais mariola que não aceite o alvitre a não ser de pessoa com a experiência dos anos.

– Está bem, Carlos! Eu vou contigo! Mas quem marca o ritmo da passada sou eu, porque isto já não anda para grandes correrias.

– Como quiser, Tio Ambrósio! Temos quase uma manhã inteira por nossa conta.