AO CALOR DA FOGUEIRA

– Deus nos dê muito bom dia, Tio Ambrósio! Pelos vistos já está embrenhado nas suas leituras dominicais. Depois do Liberato e do nosso Prior, não deve haver na freguesia quem tanto gaste os olhos a procurar nos livros, nas revistas e nos jornais o alimento para o espírito como o Tio Ambrósio! Qualquer momento lhe serve para pôr os conhecimentos em dia.

– Quem quiser andar actualizado e ter opinião própria sobre o que se vai passando no mundo em que vivemos não pode proceder de outra maneira, Carlos! A leitura para mim já não é propriamente um investimento com perspectivas de futuro, pois com esta provecta idade já não posso aspirar a colher grande fruto do que vou aprendendo. Mas os jovens, sim!

– De qualquer modo, está agora a colher o que semeou na sua juventude!

– Disso não tenhas a mais pequena dúvida, Carlos! Estou eu a colher e estás tu, porque muitas das respostas que, mal ou bem, vou dando às tuas perguntas são fundamentadas em muitas das leituras que fiz em tempos idos, numa altura em que o livro ainda era considerado como um objecto de luxo. Nesse tempo contavam-
-se pelos dedos de uma mão as famílias da freguesia que tinham mais de meia dúzia de livros. Graças a Deus, ainda conservo alguns desses volumes, muitos deles herdados dos meus antepassados, e não me desfaço deles por motivo nenhum. Emprestá-los a quem prove ser capaz de os estimar, tudo bem! Mas vendê-los, isso nem pensar! Alguns destes livros valem mais para mim do que um objecto de prata ou mesmo de ouro.

– Se calhar é por isso que Nosso Senhor disse no Evangelho que "onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração".

– Sem tirar nem pôr, Carlos! Tudo na vida é uma questão de opção, uma questão de escolha! No meu tempo de rapaz, muitos pais investiam num cordão de ouro para cada um dos filhos. Outros compravam uns lameiros, na perspectiva de a cada um tocar uma terra em herança. Um ou outro, contra o conselho de vizinhos e amigos, adquiria meia dúzia de livros, uns com histórias do nosso passado, outros ensinando novos métodos agrícolas, outros ainda recordando-nos a verdadeira doutrina da Igreja. Ainda conservo, como alguns conservam as libras em ouro, um livro, herdado do meu avô, com o título de "Missão Abreviada", que foi por onde eu aprendi muitas das orações que ainda hoje rezo antes de adormecer ou, pela manhã, logo ao acordar.

– Eu conheço, Tio Ambrósio! Vossemecê já fez o favor de mo emprestar, aqui há uns anos atrás. Serviu-me de leitura durante uma Quaresma inteira! E a minha Joana também leu algumas partes, ficando edificada com diversas passagens, embora a linguagem utilizada já não seja bem para o nosso tempo. Esta é, pelo menos, a opinião do Liberato, que conhece esse e muitos outros livros a que ele dá o nome de devocionários.

– É a opinião do Liberato e é também a minha, Carlos! Quando eu digo que este livro é para mim um tesouro, não quero afirmar de modo nenhum que não existam hoje muitos outros mais actualizados, e até de leitura mais fácil e igualmente instrutiva. Considero-o um tesouro, porque, além de tudo o mais, é uma verdadeira raridade. Mas está claro que, se hoje me chegar aqui um jovem a pedir conselho sobre uma leitura que quadre com a sua idade e os seus interesses, eu não lhe irei mencionar sequer essa ou outra obra do mesmo género. Há nas livrarias e nas bibliotecas obras de grande interesse, com linguagem actual, tratando de assuntos que têm a ver com o nosso tempo...

– Livros bons não faltam, Tio Ambrósio!

– Faltam é leitores, Carlos! A nossa juventude está mais virada para os computadores e para as internetes, o que não é propriamente mal nenhum, porque as
novas tecnologias são óptimos meios de comunicação de conhecimentos. Mas, no meu entender, não vêm substituir o livro, que há-de continuar por muitos anos a ser o melhor suporte da cultura humana.

– E já agora posso saber qual é o livro que está a ler, Tio Ambrósio?

– Este? Este é um livro de salmos! Através dele muitas coisas me tem ensinado o rei David, a quem atribuem a sua autoria. É um verdadeiro tratado de psicologia humana! De resto, não estou apenas a ler, mas igualmente a rezar! Porque um homem também pode aproveitar a leitura para pôr as suas orações em dia.
O que possivelmente não acontece com as novas tecnologias...

– Olhe que não, Tio Ambrósio! O meu cunhado Acácio, que agora se iniciou nos computadores e na internet, disse-me que é possível encontrar lá as mais bonitas orações, compostas e rezadas pelos santos de todos os tempos. Parece que até se pode encontrar lá aquela oração de S. Francisco que começa assim: "Senhor! Fazei de mim instrumento da vossa Paz!".

– Se é assim, louvado seja Deus pelos novos meios de difusão da Sua Palavra!

Louvado seja!