Ao calor da fogueira
Que tal vai essa disposição, Carlos? Pelos vistos, a vida não
te vai correndo muito mal, porque trazes aí um sorriso daqueles que começam numa orelha e acabam na outra. Que se passa?
Nada de especial, Tio Ambrósio! Vinha-me cá a lembrar dumas passagens engraçadas, daquelas que acontecem todos os dias e que são para a nossa vida aquilo que é o sal para a comida. São elas que lhe dão o verdadeiro sabor.
E eu serei digno de partilhar alguma dessas passagens que te
enchem a alma de contagiante alegria? Não se trata de coisas secretas, dessas tantas que agora estão para aí em segredo de justiça. Aliás, essas não dão para rir, mas para nos lamentarmos dos erros e das baixezas a que é capaz de descer a desregrada natureza humana.
Não, Tio Ambrósio! Nessas coisas já se falou demais, credo! Uma pessoa até fica mal disposta sempre que liga a telefonia ou abre a televisão para se actualizar com as notícias do país e do mundo. Cá dentro, os jornalistas armaram-se todos em detectives e não
fazem outra coisa que não seja farejarem por todo o lado a ver se encontram mais um antigo miúdo que, a troco de não sei quê, faça umas declarações bombásticas sobre a mais reles porcaria, agora promovida a tema de abertura de todos os jornais e noticiários. Lá fora só se fala de guerra! Até parece que a guerra é uma coisa boa, Tio Ambrósio! Em vez de noticiarem as tentativas diplomáticas e outras que se estão fazendo para se conseguir a paz; em vez de darem relevo aos apelos que o Santo Padre tem dirigido repetidamente para que se encontrem formas pacíficas de entendimento; em vez disso, deliciam-se a mostrar-nos o arsenal bélico dos americanos e os campos de treino militar dos iraquianos. Até me parece que alguns desses jornalistas ficariam sentidamente desiludidos se, em vez do troar das bombas e da destruição de cidades e da morte de pessoas inocentes, surgisse nos céus do Médio-Oriente uma pomba branca a anunciar a paz.
Mas não era por isso que tu vinhas a sorrir, Carlos!
Pois não, Tio Ambrósio! Isso, infelizmente, dá mais para um cristão andar triste do que para dar largas à alegria que lhe deve brotar do coração. E o meu sorriso nasceu na lembrança que me foi feita pelo meu cunhado Acácio em organizarmos, cá no Cabeço, um leilão cuja receita revertesse para as obras de caridade da nossa freguesia.
Um leilão?
Parece que houve ali para o norte quem se lembrasse duma coisa dessas. Uma instituição de solidariedade, estando em dificuldades, resolveu pedir uns sapatos usados ao engenheiro Belmiro, umas luvas de futebol ao guardaredes dos dragões, uma blusa a uma apresentadora de televisão, tudo para vender em leilão aos coleccionadores de objectos com história. Está a entender, não está?
Claro que estou, Carlos! Até te posso dizer que acho essa ideia muito interessante, pois é a forma de uns tantos, que têm dinheiro de sobejo, participarem no funcionamento das instituições que apoiam os mais pobres e desprotegidos. Cá no meu entender, a caridade deve ser inventiva.
E seguir os bons exemplos também não é mal nenhum, pois não, Tio Ambrósio? Por isso mesmo, o Acácio, que agora é o presidente da nossa Conferência de S. Vicente de Paulo, lançou-me a ideia de fazermos uma coisa semelhante. Eu, por exemplo, estou disposto a dar para o leilão uma enxada de dois bicos que herdei da minha sogra que Deus tenha. O cabo ainda é o original, de tal modo que o comprador fica com a certeza de ter adquirido uma autêntica preciosidade, uma alfaia que remonta já ao século passado...
Já é um começo!
Ao Sanguessuga vou sugerir que ofereça o colete de cetim que ele, até há pouco tempo, envergava nas procissões e demais festas religiosas. Herdou-o do avô, e por isso é bem natural que tenha mais de cem anos. Uma preciosidade para os coleccionadores de trajes populares! E também hei-de conseguir umas ceroulas do Liberato, daquelas que a mãe lhe fazia de pano de linho, fiado pelas suas próprias mãos. E o Tio Ambrósio também não vai ficar em branco!
Ceroulas não, Carlos! Fazem-me falta, porque o inverno vai gelado como tu sabes! Mas posso oferecer este par de óculos, que me permitiram ler centenas e centenas de páginas. Também os herdei dos meus antepassados...
Mas não pode ficar sem lunetas!...
E não fico! O meu afilhado Jaime, que tem negócio do ramo, passou por aqui há dias e deixou-me estas novinhas em