Ao calor da fogueira

– Conta-me cá como foi essa ida a Coimbra, Carlos! E deixa-me olhar para ti, para ver se descubro na tua cara
algum sinal evidente de progresso no campo da cultura. Assim à primeira vista não vislumbro qualquer alteração significativa.

– A cultura é um processo muito demorado, Tio Ambrósio! Não basta um homem vestir camisa branca e botar gravata vermelha para se tornar alguém reconhecido nos meios culturais de eleição.

– Se me falas de meios culturais de eleição, posso concluir que tu aceitas que há outros meios culturais que não são de eleição. Olha! Por exemplo o nosso! Estamos aqui a conversar um com o outro e alguém, ao ouvir-nos, pode dizer que o nosso meio cultural é de matriz eminentemente rural, que não sabemos utilizar as regras da gramática como os que agora são considerados os mestres da língua, os Saramagos e outros que tais, que não fazem caso de pontos nem de vírgulas, e por via disso recebem elogios, prémios e comendas de toda a ordem...

– Eu penso que a língua que se fala e que se escreve é uma das formas de avaliarmos a cultura de qualquer cidadão. O Liberato costuma dizer que a língua não é a cultura, mas é um veículo importante para transmitir o património cultural.

– O mais importante de todos, Carlos! Sem a língua como é que nós poderíamos manifestar os nossos pensamentos? Como é que poderíamos partilhar as nossas
ideias com os nossos semelhantes? Como transmitiríamos aos nossos vindouros a forma como hoje vivemos, como hoje trabalhamos, como hoje fazemos a nossa vida comunitária? Era quase impossível, Carlos! Por isso, a língua é fundamental na cultura de um povo. O conhecido escritor e ensaísta brasileiro Afrânio Peixoto escreveu que "é a língua a expressão de um povo". E o portuguesíssimo Fernando Pessoa tem um verso em que afirma que a sua e nossa pátria "é a língua portuguesa".

– Se eu estou a entender bem, o Tio Ambrósio está a chegar a roupa ao pêlo de quantos se descuidam e, a torto e a direito, dão pontapés na gramática, se esquecem dos pontos e das vírgulas...

– Quem sou eu para chegar a roupa ao pêlo seja de quem for, Carlos? Isso, porém, não me impede de estar atento e
observar o que se vai passando à minha volta. Ainda não há muito tempo, recebi aqui um bilhete com um recado do meu afilhado Jacinto. O rapaz teve a felicidade de frequentar a escola lá na aldeia onde residiam os pais, num tempo em que os mestres ensinavam caligrafia, ortografia, morfologia e sintaxe. É um regalo ler um bilhete assim, com uma letra bonita, bem desenhada, e sem um único erro daqueles que, no tempo da outra senhora, davam direito a palmatória.

– Nem todos se podem gabar duma coisa dessas, Tio Ambrósio! Eu, por exemplo, quando me dá para escrever uma carta ou outra a algum dos nossos governantes, para reivindicar alguma benesse para o nosso povo do Cabeço, não me atrevo a enviá-la sem que vossemecê ou o Liberato corrijam os erros de gramática e de ortografia.

– Mas há quem no faça, Carlos! Mais! Das nossas universidades, incluindo a da capital da cultura, saem bacharéis e licenciados às dezenas que não sabem quando é que a palavra "passo" (isto é apenas um exemplo) se escreve com dois ss ou com um c cedilhado. Contou-me há tempos um dos professores mais conhecidos da escola conimbricense que, numa prova escrita, se viu obrigado a dar negativa a um aluno não tanto pela falta de ideias, mas sobretudo pelos erros de ortografia, erros daqueles que, até há poucos anos, levavam os meninos de dez anos a chumbar na quarta classe.

– Hoje é assim, Tio Ambrósio! Não há volta a dar-lhe! Cá para mim a causa
disto reside nas novas tecnologias que
invadiram as casas de família e as escolas. Hoje toda a gente tem computadores e máquinas de calcular. E os jovens, perante essas e outras facilidades, começam a raciocinar deste modo: se há máquinas para fazer contas, para que havemos de estar a matar a cabeça a aprender a tabuada? Se o computador tem um dicionário na memória, para que havemos de estar a gastar a massa cinzenta a tentar distinguir as palavras que se escrevem com um s ou com um z?

– E a isso são muito bem capazes de chamar nova cultura!

– E não é, Tio Ambrósio?

– Talvez seja! Talvez seja cultura ou incultura, porque todas as realidades
podem apresentar duas faces. E cada um escolhe a que lhe der melhor jeito.

– E, além disso, temos que ser tolerantes! Não é?

– Pois claro, Carlos! Viva a incultura!