Ao calor da fogueira
– Hoje apetecia-me falar de cultura. O Tio Ambrósio está de acordo?
– Depende da cultura, Carlos! Nós aqui, no Cabeço, estamos mais talhados para falar da cultura da batata, da cultura do milho ou mesmo da cultura das beringelas.
– É evidente que eu não estou a referir-me a essa cultura que nos cansa o corpo, mas à outra que nos eleva o espírito, que nos encanta o ouvido, que nos regala o olhar.
– Estou a ver que anda por aí dedo do Liberato a desinquietar-te para ires com ele a Coimbra, que é este ano a capital nacional da cultura. Se queres que te diga, eu nem acho esse título pomposo de capital da cultura nada de extraordinário para uma cidade que, em tempos de antanho, já foi a capital do reino de Portugal, quando os nossos primeiros soberanos aqui assentaram arraiais com as suas tropas para, daqui, partirem à conquista das praças a sul do Mondego. Se é verdade que Portugal nasceu à sombra do castelo de Guimarães, tornou-se um país livre em Coimbra, com o contributo inestimável dos cónegos regrantes de Santa Cruz. Se tu quiseres, um dia posso contar-te essa história, que agora não vem para o caso, porque a cultura de que tu pretendes falar deve ser outra.
– Não, Tio Ambrósio! O conhecimento do nosso passado como povo interessa-me muito, e penso que pode ser considerado como um dos elementos integrantes de qualquer cultura. Quando pretendemos abordar este ou aquele assunto, é natural que comecemos por lembrar a sua história. Eu estou convencido que o presente só pode ser entendido em toda a sua dimensão se olharmos para trás, se formos ver onde mergulham as suas raízes.
– Então deves entender que, olhando para as raízes de Coimbra, não é nada de envaidecer que, durante um ano, a chamem de capital nacional da cultura. No meu entender, Coimbra devia pugnar por ser reconhecida, não apenas um ano, mas todos os anos como a capital da cultura portuguesa.
– Isso não impede que este ano se faça um esforço por dar visibilidade à cidade, com a vinda de personalidades importantes, com a realização de espectáculos verdadeiramente culturais, com a organização de palestras e encontros...
– Agora não tenho qualquer dúvida de que foi o Liberato que te andou a meter essa ideias na cabeça, convidando-te para ires com ele a algum sarau de poesia ou a visitar alguma exposição de escultura ou de pintura.
– E fazemos mal, Tio Ambrósio?
– Não, Carlos! Mas não devemos reduzir a cultura de um povo, ou mesmo de uma cidade, à apreciação de um espectáculo teatral, de uma dança artística ou da exibição de um grupo coral. A cultura é muito mais do que isso. É a expressão do modo de viver de um povo.
– Eu pensava que essa era a cultura popular.
– E haverá outra?
– Então não há, Tio Ambrósio? Eu penso que as danças e cantares, os modos de vestir, a forma como se coze a boroa de milho ou como se faz o salpicão, que tudo isso pertence à cultura popular. Só nesse sentido é que eu entendo que o Sanguessuga, citando não sei que intelectual da nossa praça, anda sempre a repetir que "beber vinho é um acto de cultura".
– E comer grelos com chouriça de sangue também é. Pelo menos na Beira.
– E tudo isso pertence à cultura do povo. Mas depois há a outra, a dos intelectuais...
– Por exemplo saber fumar de cachimbo.
– Isso não sei, Tio Ambrósio! Mas já tenho visto alguns que, para se darem ares de intelectuais ou de homens de cultura, procedem precisamente como vossemecê está a dizer. Deixam crescer a melena, vestem de escuro...
–- E, quase sempre, a cultura deles fica-se por aí. É uma cultura de aparências, Carlos! Os verdadeiros homens e mulheres de cultura não precisam de dar nas vistas nem de andar nas bocas do mundo para, com a sua acção, transformarem positivamente o ambiente em que se inserem. Fugir da realidade, inventando mundos de sonho e de quimera, não é verdadeira cultura. Essa tem de
ganhar expressão na vida de todos os dias e de todas as pessoas. Não há cultura sem pessoas concretas, sem formas de
viver concretas.
– O Tio Ambrósio deixa-me um bocado baralhado!
– Talvez, Carlos! Mas é bem possível que, nestes tempos mais próximos, voltemos a este assunto, procurando esclarecer alguns aspectos deste tema verdadeiramente aliciante. Entretanto, vai lá a Coimbra com o Liberato, e depois conta-me o que viste e ouviste.
– Fica prometido, Tio Ambrósio!