Ao calor da fogueira

 

– Agora é que o frio veio a sério, Tio Ambrósio! Este ano tivemos sorte, porque houve mesmo o chamado pequeno verão do S. Martinho, que nos permitiu a reunião de quase todos os cabecenses à volta das suas castanhas, aqui, no passado domingo. Mas agora, arrefeceu de verdade.

– Estamos no tempo dele, Carlos! Como vês, eu já me passei, com armas e baga­gens, cá para dentro da minha choupana, para usufruir do calor da minha fogueira. Até lá para os começos de Abril, se não houver nada em contrário, é aqui que me vais encontrar, lendo os meus livros, conversando com os meus amigos, ou fazendo as minhas orações da manhã, da tarde e da noite.

– Como já é costume há tantos anos, eu cá virei importuná‑lo com as minhas dúvi­das, as minhas perguntas e as minhas inquie­tações. Habituei‑me a esta nossa cavaqueira e já me custa passar uma semana que seja sem o conforto ou o esclarecimento das suas palavras.

– Somos uns para os outros, Carlos! Quando nos encontramos com um verdadeiro espírito de fraternidade, todos lucramos com isso. Os mais novos têm ocasião de se desemburrarem, aprovei­tando os conhecimentos e a experiência dos mais velhos; estes, por seu turno, lucram com a presença dos mais jovens, pois olhando para eles recordam, umas vezes com alegria e outras com saudade, os tempos felizes da sua juventude. Por exemplo, no nosso caso, o que seria eu sem a tua amizade e a dos outros rapazes do Cabeço, a começar no Sanguessuga e a terminar no barbeiro Ernesto.

– O Emesto tem vindo visitá‑lo? Ainda ontem passei pela barbearia dele, para dar um jeito ao penteado, e não me disse nada. Se calhar foi porque a conversa se não proporcionou.

– Há muita gente que, sem nós saber­mos, cumpre os seus deveres evangélicos, Carlos. Como tu aprendeste na doutrina, Jesus disse aos discípulos, a propósito do bem que devemos fazer aos irmãos, sobretudo aos mais necessitados, que a tua mão direita não deve saber o que dá a tua esquerda. Assim acontece com o Ernesto. Embora na sua barbearia se fale de todos os assuntos, desde a política ao futebol, passando por todas as poucas vergonhas que acontecem todos os dias, há um tema que fica habitualmente no silêncio recatado da sua consciência.

– Está a excitar a minha curiosidade, Tio Ambrósio! A vida do barbeiro Ernesto, como a de quase toda a gente do Cabeço, é um livro aberto. Eu conheço‑o desde a nossa meninice, e não me parece que haja na vida dele, a não ser aquelas coisas que são do foro íntimo de cada um, seja o que for que deva ser escondido.

– Estás a interpretar mal, Carlos! Eu não disse que o Ernesto esconda dos amigos seja o que for. Tu sabes como ninguém que, em todo o Cabeço, não há local onde as conversas sejam mais variadas e até mais participadas. Se alguém vende umas arrobas de batata, ainda nesse dia o facto é comentado na barbearia do Ernesto. Se alguém torce um pé e tem de ir ao centro de saúde, logo tudo ali é obser­vado ao pormenor, desde as circuns­tâncias em que o pequeno acidente se deu, até à demora em atenderem o pobre que para ali gemia cheio de dores.

– Isso é verdade, Tio Ambrósio! No Cabeço, quem queira andar a par de tudo o que acontece (e, às vezes, do que não acontece), ou vai ao estabelecimento do Sanguessuga, ou aparece, como quem não quer a coisa, na barbearia do Ernesto. Pede‑se o jornal do dia ou mesmo o últi­mo número do “Amigo do Povo”, come­ça‑se por comentar a charada em frase ou uma das notícias de toda a parte, e vai daí a nada já um homem sabe da última desavença do Zé Moleiro com a mulher, ou da zanga da Cacilda com a prima Rosalinda por causa de uma ninhada de pintos. Por isso me parece muito estranho que haja algum assunto de possível conversa que o Ernesto esconda do público em geral e de mim, que sou um dos seus melhores amigos, em particular.

– Eu já te disse que se trata apenas de cumprir a palavra do Evangelho, Carlos! O nosso amigo Ernesto não quer que a sua mão esquerda saiba o bem que faz a sua direita. O mesmo é dizer que há coisas que todos nós fazemos não para sermos vistos, nem aplaudidos pelos homens, mas apenas porque sabemos que esse é o nosso dever de cristãos. Para não ficares aí com confusões mentais, informo‑te que o Ernesto, agora no inverno, para eu não ter que andar por aí à chuva e ao vento, correndo o perigo de uma pneu­monia, faz‑me o favor de vir cá a casa alinhar os poucos cabelos que ainda me restam. E sei que, ao fim‑de‑semana, vai cortar o cabelo e fazer a barba a outros velhotes.

– Mas isso deve ser divulgado, Tio Ambrósio! Os bons exemplos não podem ficar escondidos, correndo o risco de não serem imitados.

– Pois é, Carlos! Mas tal como há muita pobreza escondida e envergonhada, há também muita virtude recatada. Ben­dito seja Deus!

        Seja sempre bendito, Tio Ambrósio!