À sombra do castanheiro

– O Tio Ambrósio acha que ainda há verdadeiro patriotismo?

– Que pergunta embaraçosa, Carlos!

– Não vejo que embaraço possa vir do facto de um homem se declarar um patriota, Tio Ambrósio!

– Não é isso, Carlos! Simplesmente eu não estava à espera que me atirasses de chofre com uma pergunta do género. Quanto ao mais, penso que é inteiramente legítima a tua inquietação. O que mais se vê por aí é tudo menos autêntico patriotismo.

– O mesmo diz o nosso amigo Liberato, com quem, um dia destes, estive a comentar alguns factos acontecidos aquando da celebração do feriado da nossa República.

– Do feriado da República ou, como dizem outros, do dia comemorativo do nascimento de Portugal.

– O Tio Ambrósio está a baralhar--me o esquema mental. Então o 5 de Outubro não recorda a mudança de regime, com a instauração da República?

– É verdade, Carlos! Mas muitos séculos antes tinha já acontecido um 5 de Outubro que marcou de modo definitivo a história da nossa identidade como povo. Na verdade, a instauração da República deu-se há pouco mais de noventa anos. Somos ainda muitos, graças a Deus, os que nascemos antes deste regime semi-presidencialista que agora nos governa. Porém, se todos formos vivos, no 5 de Outubro do próximo ano, havemos de comemorar os 860 anos do Tratado de Zamora, cujo texto é considerado por muitos abalizados historiadores como a certidão de nascimento de Portugal.

– Tenho uma ideia disso, Tio Ambrósio! No meu tempo ainda essas datas se estudavam na escola, quer a gente tirasse a quarta classe em criança ou, como aconteceu comigo, fizéssemos o exame de adultos. Até ainda me lembro que o mestre escola nos obrigava a dizer que, nessa cimeira ibérica, tinha estado presente, como representante de Sua Santidade, o cardeal Guido de Vico. O nome ficou-me para sempre por causa da resposta que o Quintino, que também andou na escola de adultos, deu à pergunta do professor sobre esse tal senhor cardeal. Ou porque tinha a matéria apenas engrolada, ou por deficiência auditiva em relação ao espírito santo de orelha soprado por um companheiro de carteira, o Quintino disparou a resposta, dizendo que se tratava do senhor cardeal Grão de Bico. Como calcula, o momento serviu para uma saudável gargalhada geral, a que o mestre se não quis misturar, pois dizia sempre que um homem nunca se deve rir das asneiras do próximo.

– Pois aí tens, Carlos!

– O que eu não tinha na memória era que esse tratado foi assinado precisamente a 5 de Outubro de 1143. Agora é que eu entendo a razão por que o Simões de Figueiró mai-lo Queirós dos Olivais foram, todos encadernados, a uma missa celebrada em Santa Cruz, ali mesmo no local onde está sepultado o pai da nacionalidade portuguesa.

– É como vês, Carlos! Enquanto uns celebram o fim da realeza em Portugal, outros comemoram o acto que lhe deu início e que, por magia do destino, tem precisamente a mesma data, só com diferença de alguns séculos. Quais deles serão os mais patriotas?

– Essa é a minha questão, Tio Ambrósio! Eu tenho a impressão de que tem vindo a diminuir entre nós o verdadeiro espírito patriótico. Na conversa que eu tive com o Liberato a esse propósito, passamos em revista alguns factos que abonam a favor da minha desconfiança.
Basta recordar-lhe o que, a 5 de Outubro, se passou numa vila alentejana, num encontro do secretário Carvalhas com um grupo de militantes do seu partido que, segundo parece, está mesmo em vias de extinção.

– Não me digas que o doutor Carvalhas apelou ao patriotismo...

– Isso apelou ele, Tio Ambrósio! Apesar do dia que se comemorava, dizem os jornais que os adeptos da cassete terminaram a festa ou o comício cantando o hino da internacional socialista, o «avante, camarada, avante", esquecendo por completo o hino nacional!

– Não lhes leves a mal, Carlos! Como haviam eles de cantar aquilo se ninguém lhes ensinou? Cantaram o que sabiam.

– Ora aí está, Tio Ambrósio! Se aprenderam os outros hinos, se lho ensinassem, saberiam também o hino nacional.

– É verdade, Carlos! Mas acontece que há coisas que não basta sabê-las de cor. É preciso senti-las. Acontece isso mesmo com o amor que alguns devotam e outros recusam à sua Pátria.

– Ou seja, Tio Ambrósio! Temos um défice de patriotismo!

– Somos deficitários nisso e em muitas outras coisas, Carlos! Mas, infelizmente, não está nas nossas mãos mudar os destinos da história.

– Mudar, talvez não! Mas tentar, talvez sim!