Ao calor da fogueira
Está desiludido, o pessoal do Cabeço! E não é para menos, Tio Ambrósio! De candidatos a vencedores do mundial da bola, saímos do torneio sem honra nem glória e com atitudes de quem nem sequer sabe perder. O Tio Ambrósio não está triste?
Se estou, Carlos! Um homem da minha idade já não devia
deixar-se envolver por entusiasmos passageiros, mas a verdade é que também eu não
resisti ao apelo da publicidade e, quando chegava a vez da nossa equipa, lá estava com os
olhos postos no ecrã da televisão. Ao que parece, eu nem era o único a tomar esta
atitude, pois fui informado que até o nosso Presidente da República interrompeu, por
duas vezes, a visita ao Alentejo para poder seguir de perto os nossos homens do chuto que,
lá no
Oriente, buscavam novas honras para Portugal. Afinal, quando chega à nossa porta, todos
tomamos atitudes semelhantes às do Apolinário Farturas que, a esta hora, deve estar mais
que arrependido de ter comprado o televisor novo para não perder pitada do que se iria
passar com a nossa selecção.
Para esse, e sobretudo para a família, o que aconteceu foi um verdadeiro alívio. Na segunda apresentou-se ao trabalho e agora já faz projectos para quinze dias com a mulher e os pequenos numa das praias do centro do país.
E tu, Carlos? Que comentários fazes ao que se passou?
Eu afino pelo diapasão do Sanguessuga.
Não sabia que o Manuel das Chagas era agora comentador desportivo...
Numa circunstância destas
encontramos no país pelo menos cinco milhões de comentadores e outros tantos
treinadores. Cada um de nós tinha na manga a solução mágica para se conseguir a
vitória ou, pelo menos, para evitar a humilhação. Mas o Sanguessuga nem se mete
propriamente pelo campo desportivo, mas sim por um outro que ele conhece melhor.
O Sanguessuga é um comerciante honesto da nossa praça. Que outros campos do entendimento humano entram no seu conhecimento?
A psicologia, por exemplo! Quando lhe entra pela loja dentro um
fornecedor com intenções de lhe dar a volta, apercebe-se logo do perigo. Dele costuma
dizer o Liberato que tem faro para o negócio.
E onde é que entra, neste caso da derrocada futebolística da nossa selecção, a psicologia do amigo Sanguessuga?
Para ele, a humilhação por que passaram as nossas cores no Oriente encontra a sua principal explicação na ganância! Foi a ganância que nos derrotou, Tio Ambrósio!
Se explicares melhor, eu talvez entenda, Carlos!
O Tio Ambrósio ainda se lembra do que se passou há uns anos atrás, quando a nossa selecção foi ao México?
Claro que lembro! Tal como agora, os nossos representantes, não conseguiram passar da primeira fase, arrumando as botas ao fim da segunda derrota.
E o que é que esteve por detrás de tudo isso, e que depois alimentou a conversa dos portugueses durante várias semanas a fio?
Eu ouvi dizer que os jogadores exigiram que o valor dos prémios fosse substancialmente aumentado. Mas não sei se foi isso o que realmente se passou.
Foi então e foi agora, Tio Ambrósio! Depois de uma vitória clara sobre os polacos, os nossos rapazes, em vez de se preocuparem com o jogo seguinte, resolveram dizer que eram os melhores do mundo e, como tal, sendo vedetas de primeira, exigiram regalias que não estavam no já bem recheado contrato. Não queriam mais dinheiro, mas os dirigentes federativos tinham que lhes garantir que o prémio de jogo lhes seria entregue isento de qualquer imposto. Está a ver o filme, Tio Ambrósio? Vossemecê paga impostos sobre tudo o que vai comprar à mercearia; um operário paga impostos sobre o seu salário de miséria... e suas excelências pretendiam que a lei não se aplicasse aos milhares que auferem por cada partida em que participam. Queriam receber o prémio limpo, sem qualquer imposto. É por isso que o Sanguessuga afirma que a verdadeira causa do nosso insucesso foi a ganância dos rapazes. Em vez de se orgulharem por vestirem as camisolas com as nossas cores, estavam era preocupados em que se depositassem mais uns euros nas suas contas bancárias.
Se calhar isso nem será bem verdade, Carlos!
Eu estou a vender-lha pelo mesmo preço que a comprei ao Sanguessuga. Ele defende a pés juntos a teoria da derrota por via da ganância. É que, como diz o nosso povo, quem tudo quer tudo perde.
E o pior, Carlos, é que esses rapazes da bola são apresentados como modelos à nossa juventude.
Modelos com pés de barro, Tio Ambrósio!
Eu diria com pés de chumbo!