Ao calor da fogueira

– Ainda não foi desta vez que foi feita justiça, Tio Ambrósio!

– Não sei a que te referes, Carlos! Mas tu lá terás as tuas razões para fazeres uma afirmação tão clara e isenta de qualquer tipo de reserva. Que se passa, Carlos, para me apareceres assim com o fel ao pé da boca? Que bicho te mordeu? Alguém passou à tua frente ou por cima de ti sem ter tido o cuidado de, ao menos, te pedir licença?

– Lá está o Tio Ambrósio a levar as coisas para a brincadeira!

– É uma maneira de te animar, Carlos! Tu bem sabes que uma das sete obras de misericórdia espirituais é consolar os tristes.

– Mas eu não estou triste, Tio Ambrósio! Pode dizer-se que estou um bocadinho irritado.

– Pois também é uma obra de misericórdia acalmar os irritados. O nosso povo costuma dizer que, em situações destas, deve pôr-se um pouco de água na fervura. Além de tudo o mais, até me parece que, desta vez, estás a ferver em pouca água. Não me engano, pois não, Carlos?

– Não sei se é pecado manifestarmos a nossa indignação...

– Depende da causa e do modo, Carlos! Se a causa que leva à indignação for matéria de princípios fundamentais da dignidade humana, ou coisa parecida, então acho bem que nos sintamos indignados e manifestemos publicamente o nosso estado de espírito.

– Pois a minha indignação, ou seja a minha discordância aparece-me sempre por esta altura do ano, por ocasião da celebração do Dia de Portugal.

– Estou a ver, Carlos! Mais uma vez ficaste no número dos cidadãos anónimos, dos nove milhões novecentos e noventa e nove mil e novecentos e tal que não foram agraciados com nenhuma comenda. Tens alguma razão, Carlos!
A ti ficava-te a matar uma condecoração da Ordem do Mérito Agrícola, em representação de todos os homens de Portugal que ainda ganham o pão de cada dia criando bezerros, cavando vinha ou matando o corpo para colherem dois ou três moios de cereal.

– Lá está vossemecê a entrar outra vez na reinação! Eu sei que não passo de um desconhecido cavador de enxada e orgulho-me das condecorações que posso mostrar em qualquer lado. Está a ver estas mãos calejadas? Cada calo é uma comenda, Tio Ambrósio! Quando eu me refiro a este assunto é sempre a pensar na sua pessoa.

– Na minha pessoa? Tu deves estar a precisar de ir ao médico, Carlos!

– Não desvie a conversa, Tio Ambrósio! Eu já não digo que se lembrassem de si para o agraciarem com o grau de cavaleiro da Ordem de Santiago, ou lhe atribuíssem mesmo o título de grande oficial da Ordem do Infante. Mas não faziam mais que o seu dever se lhe botassem ao peito a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

– Deixa-te de graças tolas, Carlos!

– Estou a dizer aquilo que sinto, Tio Ambrósio! Vossemecê tem sido um lídimo combatente pela liberdade no nosso país. Eu, por mais voltas que dê à cabeça, não encontro melhor exemplo, entre os meus conhecimentos, de alguém que se possa apontar como verdadeiro e desinteressado defensor dos direitos do povo.

– Deixa-te de tretas, Carlos!

– Não sou eu o único a dizê-lo, Tio Ambrósio! Se viessem fazer um inquérito no Cabeço e nas sete freguesias em redor, perguntando a quem deveria ser atribuído o grau de comendador da Ordem da Liberdade, tenho quase a certeza que o seu nome figuraria em primeiro lugar. Mas, enfim!, eu já não ia para tão longe, até porque, pelo que eu vou observando, essa comenda da Liberdade é exclusivamente para os que resistiram ao regime anterior ao 25 de Abril. Que fiquem com ela, e que lhe faça bom proveito! Mas que, ao menos, se lembrassem de si para comendador, com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública.

– Pior, Carlos! Tu endoidaste de vez!

– Nada mais justo, Tio Ambrósio! Vossemecê é o mais velho dos cronistas portugueses! Há quantas décadas é que vossemecê, semana atrás de semana, escreve no nosso pequeno jornal? Por acaso, o Tio Ambrósio calcula quantos cidadãos das nossas aldeias aprenderam a soletrar as primeiras frases lendo os seus escritos?

– Só fiz o que devia, Carlos! E quando eu faço o que devo não estou à espera de galardões ou de comendas, ou seja do que for.

– Mas era justo, Tio Ambrósio!