Ao calor da fogueira
- Então, Carlos? Tens visto por aí o Apolinário Farturas?
- Depois daquele dia em que ele foi pedir à doutora Amélia que lhe desse quinze dias de baixa para poder acompanhar tintim por tintim todas as partidas do mundial de futebol, depois desse dia nunca mais lhe botei a vista em cima. Não! Perdoe-me, Tio Ambrósio, que estou a mentir, mas é por falta de lembrança. Vi o Farturas nos últimos dias de Maio, ainda antes da competição, acompanhado de um rapaz que veio da vila instalar-lhe em casa uma parabólica especial para poder ver todas as partidas, porque isto agora até tem que se pagar para se ver um jogo na televisão.
- A doença do Farturas chegou tão longe?
- Mas encontrou-lhe remédio, Tio Ambrósio! É caro, mas é outro luxo! Enquanto os vizinhos têm que se contentar com uma partida ou duas por semana, ele agora pode regalar-se com três ou quatro jogos por dia. E, nos intervalos, consome toneladas de publicidade como os outros.
- Nesse caso, paga duas vezes. Uma, quando envia todos os meses a assinatura da televisão por cabo; outra, quando, nos intervalos das partidas, lhe metem pelos olhos dentro anúncios sobre uma caterva de produtos que apenas servem para a gente gastar dinheiro. Se um homem se deixa ir na cantiga, acaba por adquirir coisas que não valem a ponta dum chavo. A publicidade é quase sempre uma ilusão. Os publicitários douram a pílula e os papalvos não resistem ao brilho ilusório das luzes. E depois, quando dão pelo engano, ainda batem com a mão na cabeça, mas quase sempre é tarde de mais para arrependimentos do género.
- Hoje em dia, infelizmente, todos nos deixamos arrastar por esses métodos de publicitar produtos que nos não fazem nenhuma falta, mas que acabamos por comprar, umas vezes porque é moda, outras para não ficarmos atrás dos nossos vizinhos. Se ele tem, eu não lhe posso ficar atrás. Há alguma vaidade no meio disto tudo.
- Há, Carlos! E os publicitários sabem disso! De resto, uma das técnicas mais usadas em publicidade consiste em convencer os consumidores de que são pessoas muito importantes. Raro é o homem, e muito mais rara a mulher, que não gosta de um elogio. Por isso, os publicitários alimentamlhes a vaidade, enchem-lhes a casa de inutilidades e, o que é pior, obrigam-nos a individar-se, muitas vezes recorrendo ao crédito bancário, para parecerem aquilo que não são.
- Não será esse o caso do Apolinário, Tio Ambrósio!
- Pergunta ao Sanguessuga se não é! Quem veio cá montar-lhe a aparelhagem para ver o mundial, repimpado no seu sofá, foi o técnico da vila. Mas quem vendeu o televisor e essa coisa que chamam de parabólica foi o Sanguessuga. Pergunta-lhe e ficarás a saber que os jogos do mundial vão ficar caros ao Farturas e à família. Durante um ano, uma boa parte do ordenado vai direitinho para pagar a prestação do equipamento.
- Em jogadas dessas é que eu não entro, Tio Ambrósio! Os meus negócios
ainda são feitos à antiga. Se tenho disponibilidades monetárias, compro o que me é preciso, para mim ou para a família. Mas se não tenho, chego-me atrás, à espera de melhores dias. Graças a Deus, não me tenho dado mal com este modo de proceder.
- Tu vês pouca publicidade, Carlos!
- E para que hei-de eu estar a olhar para essas coisas, se me não dão interesse nenhum?
- É que, se tu visses alguns anúncios que são repetidos vezes sem conta na televisão e na rádio, acabarias por sentir a necessidade de comprar como os outros. Tu, por exemplo, já ouviste falar de colchões milagrosos?
- Milagrosos, porquê?
- Porque acabam com todas as dores na coluna, nas pernas, na cervical e em todas as dobradiças do corpo humano.
- Não há disso, Tio Ambrósio!
- Mas os publicitários dizem que sim! E apresentam casos concretos, dizem eles, de pessoas que passavam as noites num martírio e que, ao mudarem de colchão, passaram a ter noites de sonho. Quem ouve isto uma, duas, cem ou mil vezes, acaba por se convencer que é verdade, abre os cordões à bolsa e compra um colchão que é melhor só porque foi mais caro.
- Não será bem assim, mas quase. O Tio Ambrósio está a fazer uma caricatura da situação, mas o exagero não anda longe da realidade.
- O Lopes não costuma dizer que os publicitários são uns exagerados?
- - Exageram e convencem, Tio Ambrósio. Por isso, nessa matéria, eu ando sempre com um pé atrás. É que, como também refere o Lopes, o seguro morreu de velho.