À SOMBRA DO CASTANHEIRO
- Hoje é um dos dias mais bonitos do ano. Não lhe parece, Tio Ambrósio?
- Se te referes às condições da meteorologia, estou inteiramente de acordo contigo. Como vês, já me vim instalar à sombra do meu frondoso castanheiro. Quando quiseres falar comigo, durante toda a época do estio, é quase certo encontrares-me aqui, entretido com as minhas leituras, passando as contas
do meu rosário ou ruminando os meus pensamentos de velho, de um velho que percorreu um longo caminho e tem, por isso, um rol infindável de recordações. Mas, por certo, não é a isto que te referes quando dizes que temos aí um dia bonito.
- Pois não, Tio Ambrósio. Eu vinha cá a pensar no que vi, esta manhã, na missa das onze. Foi uma coisa comovente!
- Que foi, Carlos? Eu não guardo para tarde o que posso fazer mais cedo e, habitualmente, vou à missa das oito. Não me dei conta de nada fora do habitual. É verdade que gostei da prática do nosso Padre Feliciano, mas nem isso é de espantar, pois ele foi sempre, desde que o conheço, um dos mais atilados pregadores do arciprestado.
- Também passou por aí, Tio Ambrósio! Do que eu mais gostei foi da referência ao Dia da Mãe que, antigamente, se celebrava a oito de Dezembro e, agora, se festeja no primeiro domingo de Maio, o mês dedicado pela Igreja aos louvores de Nossa Senhora, que é modelo de todas as mães.
- Ora aí tens uma demonstração do que eu acabo de dizer sobre as qualidades oratórias do nosso reverendo Prior. Na missa da manhã, para os paroquianos da terceira idade, falou sobre a necessidade de darmos testemunho da nossa fé aos mais novos, pois não há nada que melhor arraste os jovens para uma vida virtuosa do que o bom exemplo dos que têm a cabeça coberta de cabelos brancos. Pelo que tu me dizes, na celebração das onze, com a igreja repleta de jovens, o discurso foi totalmente diferente, com referência a um tema que empolga todos aqueles que têm a dita de ainda poderem agradecer a suas mães o dom precioso da vida. A essa qualidade, rara nos pregadores de agora, chamam os mestres de adaptação ao auditório.
- E foi mesmo bonito, Tio Ambrósio! Não sei como é que vossemecê adivinhou, mas as palavras do Padre Feliciano foram mesmo no sentido do agradecimento que todos devemos às nossas mães pelo facto de elas nos terem transmitido o mais precioso de todos os dons, que é este de estarmos vivos. E ainda disse mais, chegando a comparar o amor das mães ao amor de Deus.
- E não é, Carlos? Não há amor nenhum neste mundo que mais se assemelhe ao amor divino do que aquele que recebemos gratuitamente das nossas mães. Tal como o amor de Deus, o amor da Mãe, mesmo repartido por muitos filhos, é sempre grande. O seu amor não diminui pelo facto de ser
distribuído por dois, três ou mais filhos. A mãe que tem apenas um filho não ama mais intensamente do que a que tem um rancho deles à sua volta.
- E não é bonito, mesmo quando chegamos à idade adulta, ouvirmos estas coisas, Tio Ambrósio? - Eu tenho a idade que tu sabes e ainda hoje me enterneço com a lembrança dos carinhos que dela recebi. Há muitas coisas que o tempo não é capaz de apagar!
- Mas o mais bonito, para mim, foi o que aconteceu na altura do abraço da paz.-
- Estou a ver! O Padre Feliciano convidou todos aqueles que tinham a mãe presente na assembleia a darem-lhe um beijo.
- Um beijo e uma rosa, Tio Ambrósio! Eu não sei de quem foi a ideia, mas o certo é que, na altura própria, apareceu uma cesta cheia de rosas, e cada um foi buscar uma para, com o beijo da paz, a entregar a sua mãe. Ficou a igreja muito mais alegre, com dezenas de mães, todas com a sua rosa na mão,
entoando um cântico de louvor e de gratidão porque, nelas, como em Maria, "o Senhor fez maravilhas".
Deve ter sido bonito e comovente!
- Até o Sanguessuga estava com a lágrima no canto do olho, Tio Ambrósio! - E as mães, essas nem se fala!
- Todas, Tio Ambrósio! Mas a mais comovida, cá no meu entender, era a Tia Mariana! Com sete filhos ainda vivos e todos presentes, no fim da missa quase parecia a Rainha Santa com uma aventalada de rosas!
- Aí tens, Carlos! Um gesto simples, mas cheio de significado!
- E, sobretudo, carregado de muita ternura! Daquela ternura com que, neste dia, queremos agradecer a todas as mães do mundo. Bem-hajam as nossas mães!