AO CALOR DA FOGUEIRA

- O Tio Ambrósio pode esclarecer-me sobre os defeitos da democracia?

- Posso, Carlos! Mas, antes de responder à tua questão, gostaria de saber qual é o fundamento dessa tua preocupação. Tu entenderás que não é muito natural um cidadão qualquer andar inquieto com problemas desse género. Das duas, uma - ou é um lunático ou um verdadeiro filósofo.

- Já me têm chamado nomes mais feios, Tio Ambrósio! Mas, quanto à minha inquietação, podemos dizer que nasce dum facto muito simples. Um dia desta semana, quando regressava do campo, de dar o dia ao meu compadre Ferradura, encontrei o Brilhantina, que agora é quem representa os filiados na esquerda cá no Cabeço, que vinha de assistir ao debate sobre o programa do novo governo. E vai daí perguntou-me o dito cujo se eu era capaz de lhe enumerar pelo menos os sete pecados capitais da democracia.

- E tu, Carlos? Não me digas que ficaste embasbacado, como um boi a olhar para um palácio!

- O Tio Ambrósio sabe que um cavador de enxada como eu não consegue entender, logo de imediato, essas perguntas difíceis, sobretudo quando desconfiamos que a fartura traz umas pipas de água no bico. É que não é difícil encontrarmos por aí muita gente da classe do Brilhantina, que considera democrático tudo aquilo que é da sua cor partidária, mas apelida de totalitárias todas as decisões que partem das outras forças parlamentares.

- E tu estranhas isso, Carlos?

- Claro que estranho, Tio Ambrósio! Eu tenho as minhas convicções pessoais em matéria de democracia, e já vi tomar mais que muitas decisões que estavam longe dos meus horizontes partidários. Aguentei firme e calei!

- Eu entendo, Carlos! Mas penso que não é este o momento oportuno para falares sobre num assunto dessa natureza.

- Em democracia, todos os momentos são oportunos!

- Em democracia, sim! Mas em política, não! De resto, eu penso que o Brilhantina, quando te lançou a escada, estava a confundir política com democracia.

- Eu sei lá, Tio Ambrósio! No entanto parece-me bem mais fácil encontrar os pecados capitais da política do que os da democracia. Até porque a democracia, para muitos, é uma espécie de deusa sagrada, de algo em que não se pode tocar.

- Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, Carlos! A política, como a descrevia o conhecido humorista Bordalo Pinheiro, é uma espécie de porca parideira, com mais de três dezenas de tetas, onde todos os porquinhos procuram mamar.

- E a democracia, Tio Ambrósio? Não será ela a irmã, ou a prima, ou pelo menos uma parenta próxima da política?

- Algum parentesco sempre terão, Carlos! Mas são duas primas que não devem confundir-se, pois há política que de democrática nem sequer conserva a simples aparência. Isso acontece, por exemplo, quando alguém está convencido que o adversário tem razão, mas afirma a pés juntos que não tem, só pelo facto de que é politicamente incorrecto deixar transparecer um mínimo de simpatia pelas soluções apresentadas pelos opositores.

- Nesse caso, devo concluir que o Brilhantina é um consumado político! Para ele, qualquer solução para os problemas do povo que não venha da bancada dos da sua cor não é solução nenhuma.

- Ora aí tens um dos pecados capitais da democracia, Carlos! - Ou da política?

- De ambas, Carlos! Quando alguém se julga dono e senhor da verdade toda, e sobretudo quando pensa que só ele e os seus partidários é que agem em consonância com os princípios democráticos, nesse momento está a pecar contra a democracia.

- Estou a ver que há alguma semelhança entre os pecados capitais da democracia e os pecados contra o Divino Espírito Santo. A minha avó ensinou-me que um desses pecados é "não aceitar a verdade reconhecida como tal".

- Mas tu achas que, em política, pode haver reconhecimento da verdade?

- Se a verdade for uma evidência, não vejo problema nenhum em declará-la como tal. Eu sempre ouvi dizer que contra factos não há argumentos.

- É por isso que nem todos servem para políticos, Carlos! Estou em crer que tu podes ser incluído nesse número.

- Por falta de competência?

- Não, Carlos! Por excesso de zelo em relação à verdade!