À sombra do castanheiro

– Toda a gente vai de férias, Tio Ambrósio!

– Ainda não é bem toda, Carlos! A ti, este ano, ainda te não ouvi falar desse assunto. O Sanguessuga passou aqui há dias, e disse-me que também não ia dar a volta do costume. O teu cunhado Acácio pa-rece que se vai limitar a dois fins- -de-semana mai-la Ermelinda na praia da Tocha.

– É a crise, Tio Ambrósio! E vos-semecê para onde é que vai?

– Não vou, Carlos! Fico aqui em volta dos meus livros e do amanho do meu quintal.

– Não vai, este ano, visitar algum dos seus parentes afastados?

– Podia ir, mas fico! Devo demonstrar a minha solidariedade para com os que não têm possibilidades de gozar uns dias de férias. E tu?

– A minha Joana, a quem pus o problema, respondeu-me que os pobres não têm férias. E eu concordo com ela. Os pequenos é que vão passar uns dias à praia numa colónia balnear organizada pelo nosso Padre Feliciano. Faz-lhes bem respirar a brisa do mar. E, como aquilo é barato, e têm quem os acompanhe, até fui eu a entusiasmá-los. Vou ficar oito dias sozinho com a patroa.

– Vai ser um sossego, Carlos!

– Até de mais, Tio Ambrósio! Um homem habitua-se de tal modo a vê-los correr e saltar (e até a aju-dar um pouco nas lidas do campo e de casa) que, quando faltam, tudo nos parece uma pasmaceira. Uma casa sem crianças é como um jardim sem flores! Não concorda, Tio Ambrósio!

– Tudo se quer no seu tempo, Carlos! As flores brotam e abrem na primavera da vida. No outono vão caindo as folhas...

– Mas também é bonito o outono!

– Posso dizê-lo por experiência própria! É o tempo do silêncio, da tranquilidade e das recordações. E tu sabes como eu aprecio o silêncio! Passo aqui horas seguidas sem dizer palavra, e sem ouvir a voz de ninguém. E como é reconfortante esta paz!

– Eu não sou muito para essas coisas! Gosto mesmo é de encontrar os amigos, de dialogar com eles. E, às vezes, até os espicaço, para saber a opinião deles sobre certos assuntos. Ainda ontem passei mais de duas horas a conversar com o Liberato, a propósito daquela entrevista que o senhor bispo D. Carlos Azevedo deu a uma estação televisiva, e que deixou alguns políticos à beira dum ataque de nervos.

– Eu também ouvi, e concordo com tudo o que ele disse. Aliás, só não concordam com a opinião expressa pelo dito senhor bispo aqueles que, estando bem na vida, se estão nas tintas para os desempregados, para os que passam fome, para os que não têm dinheiro para a farmácia ou para pagar a renda de casa. De resto, eu já te disse algumas vezes que o problema da crise não se resolve com o aumento de impostos, mas com uma distribuição justa da riqueza. É verdade que os que ganham mais pagam impostos mais altos. Mas isso é uma falácia! Pois, embora pagando muito, aquilo que lhes sobra é ainda imensamente mais do que têm os que ganham menos. E depois, que autoridade moral tem alguém que aufere o equivalente a quarenta ou cinquenta ordenados mínimos para pedir mais sacrifícios a quem já não tem o suficiente para matar a fome todos os dias?

– O Liberato até está em escrever uma carta ao senhor bispo D. Carlos para o louvar pela sua coragem, pois foi capaz de dizer aquilo que a grande maioria dos portugueses pensam, mas não têm oportunidade nem ressonância de voz para se fazerem ouvir. De facto, se for eu ou vossemecê a dizer que os banqueiros fazem fortunas pessoais com o dinheiro das poupanças dos pobres, ninguém nos presta nenhuma atenção. Mas se for um bispo a dizer que isso é enriquecimento ilícito (e que o enriquecimento ilícito é um roubo), então a denúncia já muda de figura...

– Eu é que não tenho grande jeito para essas coisas. Mas sou homem para subscrever a carta de apoio do Liberato ao senhor D. Carlos, pois não podia estar mais de acordo com o que ele afirmou. Parece-me até que o desafio que lançou aos políticos cristãos (e a outros profissionais dos diversos sectores da actividade produtiva e lucrativa) em abrirem mão de vinte por cento dos seus vencimentos, ou dos seus lucros, para se criar um fundo para combater a pobreza em Portugal é não apenas oportuno mas igualmente de largo alcance profético. É que os profetas do nosso tempo, como os de todos os tempos, não têm apenas a missão de dizer o que está mal, mas igualmente de apontar soluções concretas para se ultrapassarem as situações de injustiça.

– Se quiser, eu digo ao Liberato que vossemecê quer também assinar a carta que ele vai mandar para Lisboa.

– Se ele o permitir, Carlos! O Liberato tem todo o direito em enviar uma mensagem individual de apoio ao bispo D. Carlos. Mas não seria pior se estas coisas fossem assinadas por muita gente, para que se saiba que o povo português está de acordo com esta denúncia. De acordo e pronto a participar! Eu, dentro das minhas limitadas posses, estou pronto para dar a minha comparticipação. Que estas coisas não se mudam só com palavras!