Ao calor da Fogueira
– Que me diz o Tio Ambrósio à hipótese levantada por alguns meios de informação sobre uma eventual resignação do Santo Padre ao seu cargo de chefe visível da Igreja Católica?
– Já não és o primeiro a fazer-me essa pergunta, Carlos! No dia de Páscoa, depois da
missa, encontrei o nosso amigo Quintino. Estava um pouco amargurado porque lhe tinham dito que, no próximo mês de Maio, quando completar oitenta e dois anos, o Papa vai deixar as suas funções. Também o Sanguessuga por aqui passou um dia destes para me mostrar um jornal que trazia, na primeira página, com letras gordas, a notícia da possível renúncia.
– Que há de verdade em tudo isso, Tio Ambrósio?
– Não te sei responder com segurança absoluta, Carlos! Mas, assim numa análise superficial, parece-me que há muita gente interessada em meter-se em assuntos que lhe não dizem directamente respeito. Não podemos esquecer que o Papa João Paulo II tem sido um defensor intransigente de alguns princípios e valores que muitos parlamentos retiram das suas constituições, que muitos governos não
respeitam, que alguns grupos e movimentos atacam. É o caso, só para te dar um exemplo, da defesa do direito à vida. Quando, em diversos países, há governos, parlamentos e partidos que se juntam para legalizar a morte de crianças que crescem no ventre de suas mães, o Papa não cede um milímetro na denúncia desse pecado pessoal e social, proclamando que o direito positivo, que o mesmo é dizer as leis feitas pelos homens, não pode sobrepor-se ao direito natural, constituído pelas normas inscritas pelo Criador no coração do homem.
– Se bem estou a entender, o Tio Ambrósio é de opinião que há forças estranhas a pretenderem pressionar a opinião pública no sentido de se aceitar ou mesmo exigir que, por motivos humanitários de saúde, o Papa assine um documento de resignação.
– Eu estou apenas a conversar contigo, Carlos! A minha opinião, nesta matéria, não tem qualquer intuito de aprovar ou desaprovar seja o que for. Mas não me agrada absolutamente nada que os meios de comunicação
entrem em especulações, fazendo um folhetim diário, quase sempre fundamentado em notícias vindas de fontes pouco seguras. Na Igreja, como em
todas as instituições, há assuntos que não ganham nada em cair na praça pública.
– Quer dizer que não vale a pena eu tentar perguntar-lhe a sua opinião pessoal, ou seja se concorda ou não que o Santo Padre peça a sua resignação.
– Olha, Carlos! A Igreja tem uma história que leva já perto de dois mil anos e, embora deva estar atenta aos sinais dos tempos, aos ventos de mudança que sopram em cada época, não pode deixar de fundamentar as suas decisões na larga experiência que foi adquirindo ao longo dos séculos. Ora acontece que não existe uma sólida tradição de renúncia voluntária ao papado.
– O Líberato, baseado nas suas leituras, diz que houve já vários casos.
– Não pode afirmar uma coisa dessas, Carlos. É verdade que na Idade Média, sobretudo no século X, alguns papas deixaram de exercer o seu cargo, mas não por vontade própria. Quer as grandes e influentes famílias romanas, quer sobretudo os imperadores alemães obrigaram muitas vezes os
papas a fugirem de Roma, colocando outros no seu lugar, que nós hoje conhecemos como anti-papas.
– Mas não houve mesmo caso nenhum?
– Houve um, no final do século XIII. Depois de cinco meses de pontificado, o Papa Celestino V convocou um consistório (que é a reunião do Papa com os cardeais) e, tendo despido os trajes pontificios, sentou-se no chão, proclamando a sua renúncia ao papado. Os historiadores ainda hoje discutem sobre as verdadeiras razões que o levaram a renunciar. Uns afirmam que Celestino V, que, antes da sua eleição, era um monge contemplativo, não aguentou as saudades da sua vida eremítica; outros que se terá apercebido que não tinha qualidades de governo, que não podem confundir-se com santidade de vida; e outros ainda que se deixou levar pelos conselhos do cardeal Gaetani, um ambicioso que lhe sucederia no cargo com o nome de Bonifácio VIII.
– As coisas que o Tio Ambrósio sabe!
– Isto vem nos livros, Carlos! Assim como vem nos livros que, em 1415, o Papa Gregório XII abdicou para, com o seu gesto, possibilitar o fim do cisma do Ocidente que, durante três
décadas, tinha dividido a Igreja, havendo uns que obedeciam ao Papa de Roma e outros ao Papa de Avinhão. Foi um gesto de boa vontade e de grande dignidade.
– Uma possível renúncia do actual Papa nada teria de semelhante com qualquer desses casos.
– Pois não, Carlos! É por isso que eu digo que a tradição da Igreja não pode servir de fundamento para uma tal decisão.
– Mas pode haver outros fundamentos?
– Claro que pode, Carlos! Até é bem possível que um dia destes, se vier a talho de foice, façamos deles o motivo da nossa cavaqueira.
Cinquenta anos
ao serviço do apostolado
O Instituto Secular Missionário Servas do Apostolado celebra durante este ano 2002 o 50º aniversário da sua existência. Fundado por Maria Isabel Henriques Marques Matias, recebeu a aprovação das primeiras Constituições em Coimbra a 14 de Agosto de 1952, pelo Senhor Dom Ernesto Sena de Oliveira.
Com esta celebração jubilar as Servas do Apostolado querem:
– Revitalizar a sua capacidade de abertura ao Espírito Santo, para viverem com maior fidelidade o seu carisma de Espírito de Serviço Apostólico e Missionário;
– Trazer à memória e ao coração a fé e a esperança que a Igreja depositou no Instituto;
– Render uma profunda acção de graças a deus pelo dom da sua vocação de seculares consagradas;
– Tentar perceber os desafios que lhes são lançados pelo mundo e pela Igreja de hoje.
A abertura desta celebração será no dia 13 de Abril às 15.00h com uma Eucaristia de acção de graças na Igreja Paroquial de São José em Coimbra, seguindo-se uma Sessão Solene com Evocação Histórica, feita pelo P. Dr. António de Jesus Ramos.