Ao Calor da Fogueira

– Esta semana, no Cabeço, o tema dominante das eleições legislativas. Que comentários se fizeram a este propósito, Carlos?

– Houve de tudo, Tio Ambrósio! Com a cabeça baixa só vi o Zé Pancada, que é praticamente o único resistente do seu partido na nossa terra. Como diz o Sanguessuga, o Zé é dos que têm prazer em caminhar de derrota em derrota até à grande derrota final. Para reinar com ele, o Lopes perguntou-lhe à frente de todo o pessoal, se considerava os resultados do seu partido como um cartão vermelho à política inconsequente dos seus chefes. Nem respondeu. Até mete dó, aquele olhar de desolada e vil tristeza.

– Tirando o Zé Pancada, o resto da gente activa e laboriosa do Cabeço está toda entre os vitoriosos?

– Cada um vence como pode, Tio Ambrósio! Uns porque, de facto, obtiveram resultados positivos, outros porque os não tiveram tão negativos como esperavam, e outros ainda porque nem uma coisa nem outra. Havia de ouvir alguns deles, Tio Ambrósio! Por exemplo o Apolinário que, até há pouco tempo, arrotava dialogantes postas de pescada, pois saiba que não mudou muito do discurso. Com grande esforço lá vai admitindo que o povo não deixa de castigar os erros de quem governa mal, no entanto sem se dar por vencido, como se, nestas coisas da política, todos possam sair vencedores. Aliás, o povo até foi bastante ingrato, na opinião do Apolinário, pois não soube entender as boas intenções de quem os governava, embora faltasse por todo o lado aquilo com que se compram os melões.

– Em todo o lado, não é bem verdade, Carlos! Havia por aí muitos camaradas do Apolinário a banquetear-se com os dinheiros do orçamento. Basta recordar os que foram colocados à frente das dezenas de instituições, todos com ordenados de gestores da privada mais alta.

– Pois é, Tio Ambrósio! Ele não dá para tudo. A fartura desgovernada de um lado vai fazer-se sentir na penúria reclamante do outro. Isto quando o cobertor é pequeno, alguém tem de passar frio! Essa é, pelo menos, a lógica de uns tantos que se aqueceram como puderam sem se lembrar dos que tiritavam, gelados e descobertos.

– E tu, Carlos? Qual é a tua opinião sobre os resultados eleitorais?

– Quem sou eu para exprimir uma opinião, Tio Ambrósio? O que eu sei é que, nisto de governos, é bom a gente mudar de vez em quando. A democracia não se entende se forem sempre os mesmos a ocupar os lugares de chefia. É que, como costuma dizer o nosso amigo Liberato, o exercício do poder corrompe tanto mais quanto mais longo for o tempo em que estiver nas mãos de uns poucos.

– Concordo contigo, Carlos! A mudança é sempre saudável. Quando um cidadão está doente e se vai queixar ao médico das suas maleitas, qual costuma ser o conselho?

– Mudança de ares!

– Aí tens, Carlos! Mudar de ares, de ambiente, de hábitos... pode ser a solução para algumas doenças, mesmo para as que se desenvolvem nos meios políticos e governativos.

– Alguns não pensam assim, Tio Ambrósio!

– Ainda bem, Carlos! Além da mudança, outra das virutdes da democracia é a pluralidade de opiniões. De resto, as opiniões diferentes representam, na democracia, o que a variedade das flores representa num jardim.

– Se calhar é por isso que o Xico Tralhão, habituado a criar flores de estufa, tem opinado que, mais coisa menos coisa, vai ficar tudo como dantes. Vamos continuar a pagar impostos, a estar nas bichas para ir ao médico, a protestar contra a miséria das reformas.

– As queixas do costume!

– O Xico Tralhão, naquela linguagem vernácula que o caracteriza, adianta que só mudam as moscas...

– Essa linguagem, além de vernácula, é malcheirosa, Carlos!

– Tapa-se o nariz, Tio Ambrósio! De resto mais vale tapar as narinas do que enterrar a cabeça na areia.

O que mais vale, Carlos, é olharmos para o futuro com confiança. Não te parece?