Ao calor da fogueira

– Isto é que é madrugar, Tio Ambrósio! Eu estava em passar por sua casa logo à tarde, como é costume aos domingos. Mas ainda bem que o encontro logo pela manhãzinha e, pelos vistos, com democrática boa disposição.

– Bom dia, Carlos! Eu costumo seguir o conselho dos antigos que mandavam não guardares para amanhã o que podes fazer hoje. Assim, levantei-me cedinho, vim participar na missa das oito e, agora, vou cumprir o meu dever de cidadão. E tu?

– Também vou para lá, Tio Ambrósio! Eu, com estas baralhadas dos estádios de futebol, ainda estive tentado a mandá-los todos à fava, pois me parece que há assuntos muito mais graves a discutir, nomeadamente a saúde, a educação e as reformas da terceira idade. Mas depois, pensando melhor, achei que ninguém deve decidir por mim. E cá vou, decidido a fazer a cruz na força política que, segundo o meu modo de pensar, é a que mais garantias me dá de prestar um bom serviço na administração daquilo que é de todos nós. Para mim, este dia de eleições é sempre um dia de grande expectativa.

– É um dia de expectativa para todos, Carlos! Eu creio que tanto os que vão ser eleitos como os que os apoiaram com o seu voto estão esperançados num futuro melhor para o país. É natural que, daqui a uns meses, apareçam os primeiros sinais de desilusão. Mas enquanto o pau vai e vem folgam as costas. É esse, de resto, um dos sortilégios da democracia: os governos vão-se desgastando, fazendo asneiras de monta, dando o dito por não dito e, quando o povo parece já não ver solução para o futuro, eis que o convocam para eleições gerais. E voltamos ao princípio, com o renascer de todas as esperanças num futuro com melhor qualidade de vida para todos os cidadãos, com melhores cuidados de saúde para os doentes, com melhores salários para os trabalhadores, com renovadas oportunidades de emprego para os jovens diplomados e licenciados...

– Essas foram as promessas, Tio Ambrósio!

– E tu nunca ouviste dizer que quem promete faz dívida?

– Ouvir já ouvi, Tio Ambrósio! Mas a gente sabe que, nestas coisas da política, da promessa ao seu cumprimento vai uma longa e penosa distância. Se os políticos pudessem cumprir tudo aquilo que prometem, isto seria um céu aberto, Tio Ambrósio! Vossemecê, por exemplo, em vez duma reforma de cento e noventa euros, há muito que tinha pelo menos o dobro, e não era muito em relação à carestia de vida que por ai vai.

– Não me costumo lamentar, Carlos! Apesar da minha idade, ainda sou homem para criar meia dúzia de arrobas de batatas, uns cântaros de vinho e tratar de umas galinhas. Mas reconheço que, nesse aspecto, sou um privilegiado, pois Deus nosso Senhor tem-me dado alguma saúde para poder continuar a desenvolver esta actividade de onde vou retirando, além de algum suor, o pão de cada dia. Outros estão bem pior do que eu, sobretudo os que vivem nas grandes cidades, votados ao abandono e vivendo muitas vezes em quase permanente solidão. Para um velho, meu caro Carlos, a coisa mais insuportável é a solidão! Tu, embora sendo um jovem, já pensaste o que significa viver absolutamente sozinho, sem alguém com quem partilhar um pensamento?

– Pensar já pensei, Tio Ambrósio! Mas, felizmente, nunca fui colocado à prova, pois não me tem faltado o carinho da família, o convívio com os amigos e a natural boa disposição para ir enfrentando as contrariedades que vão surgindo. Além disso, eu estou mais que convencido que não é nenhum governo, por mais humanista que se diga, que consegue ultrapassar muitos desses problemas de índole social. As associações de cidadãos, as Misericórdias, os centros sociais paroquiais, os grupos de voluntários é que representam uma boa parte da solução para esses casos. Os governos e as instituições estatais raramente têm alma, Tio Ambrósio!

– Desde há muitos anos que tenho essa opinião, Carlos! E acontece que aqui no Cabeço nem temos grande razão de queixa. Não vemos por aí ninguém ao abandono, e desde há anos que o centro de apoio leva as refeições aos que delas precisam. E, graças a Deus, também não faltam pessoas boas que dedicam muito do seu tempo ao serviço dos outros. O que quer dizer que a solução para muitos problemas está nas pessoas e não nos governos.

– De qualquer modo, precisamos de um governo e vamos elegê-lo.

– Vamos, Carlos! Espero, de resto, que o povo aí do Cabeço não falte a estas eleições, pois a abstenção, no meu entender, além de manifestar desinteresse, é sinal de pouca maturidade política. Não podem ser os outros a decidir por nós!