Ao calor da fogueira
Que tal a campanha eleitoral no Cabeço, Carlos? Vejo tudo tão parado que até me parece que os políticos da nossa primeira divisão se esqueceram de nós.
Não perde pela demora, Tio Ambrósio! Durante toda a xsemana que aí vem, algum ou alguns dos candidatos a deputados não deixarão de bater à sua porta para que democraticamente lhes conceda o seu voto no dia das eleições. Podemos estar esquecidos cá nas aldeias durante três ou quatro anos seguidos, mas uns dias antes do acto eleitoral é certo e sabido que nos vêm prometer este mundo e o outro em troca de uma pequena cruz no boletim de voto. Todos dizem que são os melhores, os que lá têm estado e os que para lá querem ir. O Tio Ambrósio vai ver se uns e outros não vão aparecer aó com promessas de todo o género e feitio, desde o aumento das reformas dos velhotes à criação de jardins de infância para os miúdos ou à solução dos problemas que afligem a nossa agricultura.
Nesta altura do campeonato já não pegam todas as promessas, Carlos! Isso era antigamente, quando o povo andava de olhos fechados e acreditava em todas as patranhas que os mais astuciosos dos políticos lhes enfiavam como coisa verdadeira. Agora não, Carlos! Pelo menos a mim já é preciso terem a história muito estudada para me levarem à certa.
Andam sempre a inventar novos processos de convencer as pessoas, Tio Ambrósio! Então vossemecê não sabe que eles agora até recorrem a equipas de especialistas para melhorarem a imagem, ou seja para mostrarem aquilo que não são? O que vossemecê vê nos candidatos da esquerda, do centro e da direita não é o natural de cada um, mas uma imagem produzida pelos publicitários para português ser enganado.
Já ouvi falar disso, mas pensei que homens de barba rija não desciam ao ponto de se maquilharem para ganharem mais meia dúzia de adeptos.
Mas é verdade, Tio Ambrósio! Ao que parece, cada gesto é estudado e não são esquecidos os mais pequenos pormenores. Até a cor da gravata de cada um é motivo para estudo antes de cada aparição em público. Dizem os conselheiros de imagem que as gravatas coloridas despertam maior interesse nos possíveis eleitores. Está a ver, Tio Ambrósio? Estamos num tempo em que o pessoal, em vez de ir atrás das ideias e dos programas de governo que cada partido apresente, decide do seu voto pela cor da gravata do cabeça de lista. Qualquer dia vamos ver os candidatos a pintar o cabelo ou a usar lentes de contacto da cor da moda...
É natural que tudo isso exista já, Carlos! Um dia destes li, num jornal que me chegou às mãos, que um dos principais candidatos até mudou de óculos, porque os que usava lhe davam um ar muito pesado.
E engraçado que eu também estive com esse jornal nas mãos, sendo informado que muitos deles foram ao cabeleireiro, que é o nome que eles agora dão ao barbeiro, para mudarem de penteado, o que, a acreditar no articulista, tem muita influência no sentido de voto dos cidadãos.
Talvez um pouco mais das cidadãs, Carlos!
Que são a maioria, Tio Ambrósio! Por isso é natural que os candidatos a primeiro-ministro ou a outros cargos de importância visível no aparelho do Estado se preocupem com a sua imagem junto das mulheres de norte a sul do país.
E as ideias, Carlos?
Uma ou outra pelo meio também não fica mal a ninguém que se preze. Mas está visto que o país se governa com gravatas, com óculos e com penteados e com decisões acertadas. Como os tempos estão mudados!
Sem dúvida, Carlos! O que nos vale é que o espectáculo dura apenas o tempo de campanha. Depois há que botar mãos à obra, e eu espero bem que, seja quem for o vencedor desta batalha eleitoral, o país rregresse ao trabalho, que só do trabalho é que vir o progresso.
O Tio Ambrósio disse "do trabalho".
Pois claro, Carlos! Eu sei que andam por aí montes de parasitas em volta dos políticos à espera de uma recompensa, de um lugar ao sol, onde se ganhe bem e, de preferência, se não faça nada.
Mais do que até agora? Não é possível, Tio Ambrósio!
Não penses que as coisas mudam com facilidade, Carlos! Mas ninguém tem dúvidas sobre a necessidade que existe de moralizar urgentemente a administração pública, a máquina do Estado. Se houvesse dedicação e amor ao trabalho, eu estou convencido que pouco mais de metade dos que se sentam à mesa do orçamento eram suficientes para administrar os nossos poucos recursos.