Ao calor da fogueira

– Então, Carlos? Como vai a novela do nosso amigo Liberato? Eu já recebi, pelo correio, uma data de sugestões, enviadas por muitos dos leitores do "Amigo", para ele escrever mais alguns capítulos dessa história com que se propõe fazer um retrato da vida do nosso povo.

– Eu não sei se o Liberato já não terá um roteiro para o seu trabalho literário, Tio Ambrósio! Ele não é homem para pôr ombros a um empreendimento sem primeiro se sentar para ver se tem ou não condições para chegar ao fim. Eu penso mesmo que ele já leva a escrita adiantada. De qualquer modo é sempre interessante sabermos quais os assuntos que os amigos do Cabeço gostariam de ver tratados no enredo novelesco.

– Aqui tens, por exemplo, uma carta do amigo Jorge Francisco, que eu não tenho o prazer de conhecer pessoalmente, mas que, pelos vistos, segue atentamente as nossas cavaqueiras dominicais, sugerindo ao Liberato que, entre os personagens da novela, coloque um senhor doutor, como existe um lá na terra, que é amigo dos pobres e não se cansa de fazer o bem. Ora lê aí, que eu não sei onde poisei as lunetas de ver ao perto.

– A letra é mais ou menos como a minha, mas vou ver se consigo. Cá diz: "Meu caro Tio Ambrósio! Há muitos anos que leio o seu parlatório com o Carlos do Cabeço, mas nunca me foi possível conhecer nenhum de vocês. Pode ser que um dia calhe. Tio Ambrósio! Hoje dirijo-lhe estas duas mal alinhavadas regras porque, na semana passada, reparei que o senhor Liberato dos Santos, o intelectual aí do Cabeço, está a pensar escrever um romance, ou seja uma novela, em que entrem pessoas boas e pessoas más. Pessoas de maus instintos e de mau carácter não lhe vão faltar. Aparecem aí, por todo o lado, como os tortulhos nos primeiros dias de chuva. Podemos dizer que, em alguns lugares, são mesmo a maioria, ou seja, uma verdadeira praga...". Quer que eu continue, Tio Ambrósio?

– Pois claro, Carlos! O mais interessante vem agora a seguir.

– Tal, tal, tal... Cá está: "Mas o que o nosso povo precisa, Tio Ambrósio, é de bons exemplos. Por isso eu atrevo-me a pegar na caneta para lhe escrever esta carta a pedir-lhe que diga ao senhor Liberato que dê preferência às pessoas boas. Vossemecê não ouviu, esta semana, aquela notícia de um senhor doutor lá do Norte que se prontificou a operar uma criança às amígdalas, porque estava em lista de espera no hospital público e os pais não tinham meios para pagar a operação numa clínica privada, que é o que a maioria dos senhores doutores querem? Ora acontece que, como esse senhor doutor, que trabalha num hospital ligado às Misericórdias, há muitos outros por esse país fora, que são uns verdadeiros samaritanos. Aqui na minha terra há um que é um verdadeiro santo. É o senhor doutor Albino, mas isso o nome não interessa, porque ele não gosta de andar nas bocas do mundo. Um dia destes fui lá à consulta e, depois de me escutar as costas e o peito, disse-me que precisava de tomar uns remédios, mas que me ia passar na receita uns que são genéricos porque valiam o mesmo e são muito mais baratos. O boticário disse-me, quando lá fui aviá-los, que poupei mais de quinze euros. Ora veja o que não seria a poupança do povo se todos os doutores fossem como o nosso. Além disso, eu sei que, a alguns doentes que não têm pão para comer, quanto mais dinheiro para a farmácia, ele arranja os remédios ou dá alguma coisa do seu bolso para a ajuda. Aqui há tempos, a um domingo, bateram-lhe à porta para fazer o favor de consultar uma criança ainda pequena. Logo se prontificou. Mas como o caso seria mais grave do que parecia à primeira vista, aconselhou os pais a levarem a filha ao hospital. Como, se eram uns pobres de Cristo, e o pai apenas tinha, como meio de transporte, uma motorizada para se deslocar para o trabalho? Pois o nosso doutor não esteve com mais aquelas. Pegou no seu automóvel e foi ele mesmo levar a criança ao hospital. Agora, Tio Ambrósio, faço-lhe uma pergunta: Não lhe parece que um médico como este merecia figurar numa novela, como essa que está a escrever o senhor Liberato? Desculpe o meu atrevimento. Mando-lhe um abraço e cumprimentos da minha esposa Carolina que também é sua admiradora há muitos anos".

– Ora aí tens, Carlos! Que te parece?

– Não tenho palavras, Tio Ambrósio! Doutores destes devia haver pelo menos um em cada aldeia de Portugal.

– Mas as sugestões não terminam por aqui. Já recebi outras bem interessantes que podem ficar para uma próxima oportunidade.

– Não vão perder a ocasião, Tio Ambrósio!

– Se Deus Nosso Senhor nos der vida e saúde, Carlos!


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