Ao calor da fogueira

– O Tio Ambrósio podia hoje cumprir uma das catorze obras de misericórdia.

– Uma ou várias, Carlos! Embora possa não parecer, eu tenho a preocupação de pôr em prática, todos os dias, algumas dessas obras, sobretudo as espirituais. É que um cristão não é praticante só quando vai à missa ao domingo, mas também e sobretudo quando se empenha em levar a cabo os princípios fundamentais do Evangelho. Por isso mesmo, eu considero como praticantes todos os cristãos que dão de comer a quem tem fome, que dão pousada aos peregrinos, que visitam e tratam os doentes ou que consolam os tristes e corrigem os que andam por caminhos transviados.

– Pois tem hoje uma boa ocasião para ser cristão praticante, Tio Ambrosio! Aproveitando esta tarde soalheira, assim como quem não quer a coisa, vai, nas suas calmas, visitar o nosso amigo Sanguessuga...

– Está doente, o Manuel das Chagas? Que se passou?

– Não está propriamente doente, pelo menos de maleita que o obrigue a uns dias de molho. O que ele está é pior que estragado com a brigada fiscalizadora do euro.

– Foram-lhe à carteira pela porta da coima...

– E de que maneira, Tio Ambrósio! Apareceram-lhe lá no estabelecimento e, sem que ninguém se apercebesse das suas reais intenções, aviaram-se de três ou quatro produtos e pagaram com uma nota de cinco contos. O Sanguessuga que, pela manhã, se tinha deslocado ao banco para se abastecer de moedas de euros e dos respectivos cêntimos, fez a conta e deu-
-lhes o troco na nova espécie monetária. Um gesto que lhe ia custando um balúrdio...

– Ora essa, Carlos! É conveniente que as pessoas comecem, de imediato, a lidar com a nova moeda, porque, dentro de mês e meio, o escudo desaparece por completo.

– O pior é que, no troco que lhes deu o Sanguessuga, havia uma diferença de dois cêntimos em desfavor dos estranhos fregueses. E vai daí, um deles pega na caderneta das multas e, sem mais aquela, começou a passar-lhe a respectiva, com a obrigação de se apresentar no espaço de oito dias para pagar qualquer coisa como sessenta e quatro euros e alguns cêntimos por se ter aproveitado da entrada em circulação da nova moeda para molestar economicamente os seus clientes.

– Essa é boa, Carlos!

– É boa, mas dolorosa, Tio Ambrósio! O Sanguessuga bem protestou perante a iniquidade da medida, chamando todos os que ali se encontravam para testemunharem sua honradez e os seus princípios de honestidade, mas nada! A multa estava passada e só havia uma solução: pagar e não bufar!

– E o pessoal ficou todo mudo e quedo?

– Não, Tio Ambrósio! O Liberato que, por acaso, vinha mesmo a entrar, inteirou-se do que se passava e pretendeu chamar os senhores fiscais à razão, atirando-lhes mesmo com uma frase em latim sobre a tendência do homem para errar...

– Errare humanum est!

– Acho que foi essa a frase que o Liberato, em tom grave e solene, lhes espetou na cara. Mas nada! Até porque um dos zelosos publicanos, que passou alguns anos no Seminário quando ainda se estudava latim, lhe retorquiu na mesma língua com o dito de Pilatos aos judeus...

– Quod scripsi, scripsi!

- O que escrevi, está escrito! Mas o Liberato não se deu por vencido, passando mesmo ao ataque, tentando fazer ver aos fiscalizadores que, neste país, os grandes fazem o que querem e ainda lhes sobra tempo, enquanto os pobres é que pagam com as favas.

– E resultou?

– Pois então, Tio Ambrósio! Recordou-lhes que um determinado banco tinha cobrado uma choruda comissão,
totalmente ilegal, aos clientes que lá se apresentaram para trocar os escudos em euros e, que se saiba, não houve qualquer fiscal que lá fosse passar a respectiva coima. Além disso, o procedimento ilegal, como afirmava o Liberato, pondo em evidência os seus dotes oratórios,
vinha mesmo de cima. De facto, o próprio Estado estava a prejudicar os cidadãos mais pobres, os que recebem o ordenado mínimo nacional, apresentando, na conversão dos escudos para euros, alguns cêntimos a menos.

– E eles, que responderam?

– Que tinha sido engano, e que o Estado, que é uma instituição de bem, iria corrigir o erro. Ao que o Liberato respondeu que também o cidadão Manuel das chagas é uma pessoa de bem e que, tal como o Estado, estava ali para corrigir o erro, entregando-lhes os dois cêntimos do engano.

– E eles?

– Ainda tentaram fugir com o rabo à seringa, mas acabaram por chegar-se ao rego da razão. O Sanguessuga não vai pagar a coima, mas ficou com o moral arruinado só pelo facto de alguém suspeitar da sua honestidade.

– Estou a ver, Carlos! Irei passar por lá para lhe manifestar o meu apoio. Afinal, os amigos ainda são para as ocasiões!