Ao calor da fogueira

– Como foi a sua semana, Tio Ambrósio?

– Ocupada, Carlos! Muito ocupada mesmo! Só respostas a cartas que me enviaram, foram mais de uma dúzia, quase todas referentes ao tema da nossa última conversa, sobre a defesa da vida humana desde o primeiro ao último momento. Eu até tenho aqui algumas delas, para tu poderes ler um ou outro parágrafo, pois não te quero dar ao trabalho de leres tudo de fio a pavio, até porque encontrarias muitas repetições.

– E de onde veio assim tanta correspondência?

– Um pouco de todo o lado, o que é sinal de que o nosso "Amigo do Povo" chega muito longe. Até de Paris recebi um postal, de uma emigrante, natural aqui duma freguesia vizinha, a dizer que, tanto ela como o marido,
estão na disposição de virem a Portugal no segundo domingo de Fevereiro só para poderem manifestar a sua posição em relação a este assunto da liberalização do aborto. Ora lê aí essa última frase.

– Cá está! Vossemecê até já tem isto sublinhado, para a gente se não enganar. Diz assim: "Pode o Tio Ambrósio acreditar que, se o meu voto e o do meu marido ajudarem a que o nosso país não liberalize a morte dos inocentes, daremos por muito bem empregue o dinheiro que vamos gastar nas viagens de avião de ida e volta".

– Estás a ver, Carlos? Isso é que é gente empenhada em defender os valores em que acredita! Não é qualquer um que se mete a fazer uma viagem de dois mil quilómetros com a finalidade exclusiva de manifestar a sua adesão à defesa integral da vida humana em todas as circunstâncias e em todas as suas etapas.

– É verdade, Tio Ambrósio! Perante exemplos destes, como é que alguém pode ficar em casa, demitindo-se do seu dever cívico (e neste caso ainda mais que isso, do seu dever humano) de votar em consciência?

– O assunto é demasiado importante para ficarmos qietos e indiferentes ao que se passa, Carlos! Ora lê aqui outro pedaço de uma carta que me chegou de um velho amigo que vive há muitos anos lá em cima numa pequena povoação da serra. Aqui, a meio da segunda página.

– Cá está! "Sabe, Tio Ambrósio? Muitos, hoje em dia, confundem a tolerância com a indiferença. Mas vossemecê sabe bem que não são a mesma coisa. A tolerância é uma virtude humana e cristã, que nos leva a aceitar que o nosso próximo tenha um pensamento ou um modo de vida diferente do nosso. Ao passo que a indiferença não é virtude, nenhuma, pois surge, muitas vezes, como um dos frutos da preguiça, que o nosso povo costuma dizer que é a mãe de todos os vícios".

– Chega, Carlos! A carta desse meu amigo, de nome Raimundo Esteves, e que eu já não vejo há uma data de anos, é muito extensa, mas vale sobretudo por esse pensamento. Nesta matéria como em todas as outras, nós os cristãos devemos ser tolerantes, mas não podemos ser indiferentes nem inseguros na menifestação daquilo que pensamos, daquilo em que acreditamos. Quando se trata de valores fundamentais (e este é talvez o mais fundamental de todos) nós não podemos deixar-nos embalar por aquela cantiga dos que dizem que tanto vale ir pela direita como pela esquerda, que tanto importa falar como estar calado.

– Nunca me teve mais de acordo consigo, Tio Ambrósio! Um homem, colocando a mão na consciência, se tem a certeza que deve dizer não, diz mesmo não! Não está ali com meias medidas ou com falinhas mansas!

– Aqui tens outra carta! É de um adolescente que eu não conheço, mas que me diz ser ali dos arredores de Coimbra, onde vive com os pais e duas irmãs. Tem dezassete anos, e gostava de ter mais para poder ir votar. Ora lê aí!

– "Tenho bué de pena que o Tio Ambrósio, que deve ser um velhote fixe, não tenha computador nem internet, para eu poder mandar-lhe umas mensagens. Eu sou o Rui Carlos, e de vez em quando leio a sua conversa com o Tio Carlos do cabeço no jornal que a minha avó recebe e que, ao domingo, traz cá para nossa casa. Sabe que eu tenho um problema de mobilidade, e preciso, habitualmente, de canadianas para ir para a escola, onde frequento o décimo segundo ano. Pelo facto de ter dificuldade em andar, não me sinto menos que os outros, e posso dizer que sou bué de feliz e gosto bué de viver. A vida é a melhor coisa que tenho. Por isso, eu gostava de já ter dezoito anos para poder votar no referendo e, com o meu voto no "não" ao aborto (que significa sim à vida) eu dizer à minha mãe, que às vezes chora por eu ter estes problemas, quanto eu lhe estou agradecido por ter nascido".

– Não é preciso continuares, Carlos!

Puxa, Tio Ambrósio! Estes jovens dão-nos cá cada lição!