AO CALOR DA FOGUEIRA
- O Tio Ambrósio ia ficando sem castanhas! Este ano apareceu mais gente que o costume, sobretudo porque não quisemos deixar de convidar aquele grupo de imigrantes ucranianos que agora trabalham aí nas obras, na indústria da madeira e mesmo nos restaurantes.
- Foi muito bonito, Carlos! E eles até animaram a festa com as suas canções e as suas danças. Gostei de ver! E, no fundo, fiquei feliz por ver que a comunidade humana do Cabeço sabe receber de braços abertos e sem preconceitos os irmãos vindos de outros países e de outras culturas. Espero, aliás, que isto não seja apenas fogo de vista.
- Penso que não, Tio Ambrósio! E verdade que há por aí alguns marmanjos sem escrúpulos, que são bem capazes de explorar a situação precária dos imigrantes, pagando-lhes salários de miséria, não os inscrevendo na segurança social ou mesmo explorando-os na alimentação ou no aluguer abusivo de lugares para dormir. Mas no Cabeço, não! Aqui, os que trabalham nas obras ganham exactamente o mesmo que os portugueses e, que eu saiba, ninguém se serve da sua condição de estrangeiros para tirar lucros indevidos da sua presença. De resto o Tio Ambrósio inteirou-se dessa situação, pois, durante o nosso magusto do S. Martinho, chegou a falar com alguns deles.
- Falei, Carlos! E até fiquei admirado com a facilidade com que eles aprendem a nossa língua. Eu sempre tinha ouvido dizer que o português é um dos idiomas mais difíceis de dominar. Mas, pelos vistos, isso era apenas um preconceito em relação a outras línguas de povos dominadores. Por exemplo, aquele rapaz alto e louro, o VIadimiro, fala quase sem uma ponta de sotaque.
- Andam na escola, Tio Ambrósio! 0 nosso Padre Feliciano, seguindo as pisadas do senhor Prior da Mealhada e de muitos outros de norte a sul do país, abriu uma classe de aprendizagem do português falado e escrito, com aulas três vezes por semana. As lições são dadas no nosso salão paroquial onde, para o efeito, se instalou um quadro preto e tudo o mais que é preciso.
- Muito me contas, Carlos! Nem tu podes calcular quanto eu fico feliz com essas iniciativas, até porque não nos podemos esquecer que somos um povo com emigrantes espalhados pelos quatro cantos do mundo. Se fores ao Canadá, aos Estados Unidos, ao Brasil, à Venezuela, para não falar da França, da Alemanha ou da África do Sul, por todo o lado encontrarás grupos de emigrantes portugueses, ou descendentes deles. E tal como ficamos contentes em saber que os nossos patricios tiveram por lá bom acolhimento, com condições de trabalho e de integração social, devemos também esforçar-nos por acolher e apoiar aqàeles que, sobretudo da África lusófona e dos países de Leste, aqui vêm procurar melhores condições de vida para eles e para as suas famílias. Explorar esta gente é um pecado que brada aos céus!
- É mesmo, Tio Ambrósio! Aliás, foi precisamente isso que nos ensinou o Padre Feliciano, um domingo destes, no comentário que fez a uma das leituras da Palavra de Deus. Oprimir os pobres e não pagar ojusto salário a quem trabalha são dois pecados que bradam aos céus ou, como nos explicou o nosso Prior, dois pecados que deixam Deus indignado com quem os pratica.
~ Toda e qualquer exploração é indigna do homem, Carlos! Mas a exploração feita aos imigrantes, que são pobres mas têm a sua dignidade, éuma falta abominável.
- E a verdade é que há muitos lugares onde as coisas se não passam como aqui no Cabeço, ou na Mealhada, ou em outros sítios onde aparece uma instituição ou um grupo de voluntários que os apoia. Eu tenho conhecimento que há por aí muitos empresários, se eles são dignos desse nome, que não têm a mais pequena vergonha na cara, pois exploram estes homens e mulheres da forma mai . s aviltante. 0 meu amigo Lucas, que também tem imigrantes ucranianos ao seu serviço, contou-me há dias que foi contratar um deles a uma obra de construção civil onde nenhum deles ganha mais que o ordenado mínimo, sendo-lhes ainda descontados pelo menos vinte contos mensais para poderem dormir num contentor, sem nenhumas condições de habitabilidade...
-E não te admires, Carlos! É possível até que alguns desses empresários tenham começado a sua vida como emigrantes em França, onde comeram o pão que o diabo amassou. Naquele tempo apelavam eles, e com razão, para que os patrões os tratassem como seres humanos. E agora?
- Agora acontece que a memória dos homens, pelo menos em relação a algumas coisas, é demasiado curta, Tio Ambrósio! 0 nosso povo bem diz que, para se conhecer o vilão, é botar-lhe a vara na mão!...
- É, Carlos! Ditadores e exploradores sempre andaram de mãos dadas. E, por -certo, não é ainda agora que esses defeitos vão desaparecer da face da terra.
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