Ao calor da fogueira

– Isto é que tem estado um tempo, Tio Ambrósio! Há muitos anos que não chovia desta maneira! Ficou por aí tudo inundado. Mas vossemecê, aqui, não correu qualquer perigo...

– O vento ainda me chegou a assustar. mas a chuva, não! Estou aqui neste alto, de tal modo que quanta vier, quanta desce por aí abaixo até ao ribeiro. E também não dei conta de ter havido, cá no Cabeço, grandes prejuízos...

– Não houve, graças a Deus! Mas todos dizem por aí que os tempos estão mudados e que a culpa é da forma como os homens têm abusado da natureza. Será, Tio Ambrósio?

– Eu não sou propriamente um homem versado nesse assunto e, quando falo, gosto de falar daquilo de que tenho conhecimento. No entanto, também tenho ouvido dizer que esta
mudança de clima se deve às muitas asneiras que os países industrializados têm feito em relação, por exemplo, à emissão de gases poluentes. Esses fumos que invadem a atmosfera, saídos das grandes fábricas, certamente não vão purificar o ar que respiramos.

– O Liberato diz que a natureza tem as suas regras, que devem ser respeitadas.

– É o que não tem acontecido, Carlos! Em última análise, podemos dizer que a culpa toda vem do facto de o homem querer um progresso muito rápido, sem olhar aos meios que utiliza para atingir os seus fins. A natureza tem o seu equilíbrio próprio. Quando o homem não respeita esse equilíbrio, o resultado é o que temos à vista: muda o clima, com longos períodos sem uma pinga de água, e depois com outros demasiado chuvosos, com temperaturas muito mais altas do que aquelas a que estávamos habituados; com o perigo da subida permanente do nível das águas do mar.

– Estamos em perigo, Tio Ambrósio?

– Nem tanto, Carlos! Mas eu creio que os cientistas e os homens mais responsáveis (alguns não passam de grandes irresponsáveis) já entenderam que a natureza está a fazer os seus avisos para que todos tenhamos juizo. É verdade que o homem pode e deve dominar a natureza, mas dentro de determinadas regras. O progresso sem regras é sempre destruidor da natureza.

– Basta olharmos para as águas que correm nos nossos rios. Dantes eram limpidas, cheias de bogas e de carpas. E agora? A maioria são autênticas lixeiras, onde se vasa tudo o que não presta. Outros são verdadeiros esgotos a céu aberto, para onde se fazem descargas de líquidos poluentes, que não permitem a vida a um único bordalo. É uma pena, não é, Tio Ambrósio?

– O homem está a envenenar-se a si próprio, Carlos! É o resultado do egoísmo! A presente geração não está a ter cuidado nenhum com o mundo que vai deixar em herança aos seus filhos e netos. Que dificuldades vão ter os homens de amanhã num mundo com temperaturas muito mais altas do que as de hoje, com falta de água potável para beber, com cheias enormes depois de longos períodos de seca?

– A isso chama o Sanguessuga de falta de solidariedade para com as gerações futuras. Parece que o homem de hoje tem intenção de esgotar todas as fontes energéticas da natureza, não deixando nada para os que vierem a seguir. Veja, Tio Ambrósio, o que se passa com a floresta.

– Qual floresta, Carlos? Tu vês aí alguém a plantar carvalhos ou castanheiros?

– Isso não dá rendimento, Tio Ambrósio! Pelo menos não dá rendimento rápido. Daí que muitos pensem: "para que vou eu plantar sobreiros se não vou ser eu a colher-lhe os frutos?". E vaí daí, plantam eucaliptos que medram como tortulhos. É verdade que, ao fim de dois ou três cortes, deixam o terreno esgotado. Mas isso que importa? Quem vier aí atrás que se amanhe!

– Tem sido esse o pensamento da maioria dos nossos concidadãos, Carlos! E o certo é que se torna urgente que todos lutemos contra a maré! O ano passado o lume queimou-me as oliveiras e ainda me chamuscou o castanheiro. Sabes o que eu fiz?

– Sei! Até porque está à vista! Plantou novas oliveiras e meia dúzia de castanheiros! E eu tenho a certeza de que ainda vai ser vossemecê a provar os seus primeiros frutos.

– Eu não imponho qualquer limite à misericórdia divina, Carlos! Gostava de ainda andar por cá mais uns janeiros para ver com os meus próprios olhos o que reserva o futuro para estas gerações mais próximas. Apesar das muitas asneiras que temos feito, eu acredito que a natureza vai continuar a ser generosa para com a humanidade.

– Nem todos são tão optimistas, Tio Ambrósio!

Mas eu sou um homem que acredito no futuro do homem. Mal seria se perdêssemos a esperança, Carlos!