Ao calor da fogueira

 

– Está decidido, Tio Ambrósio! Vamos continuar a pagar pela medida grossa, pelo menos durante mais dois anos!

– Boa notícia, Carlos!

– O Tio Ambrósio está a brincar ou quê?

– Não estou, Carlos! Isso é sinal de que ainda cá vou estar, daqui a uns tempos, para ver o fim da crise. Mas não penses que, depois, vai ser um céu aberto, Carlos! O nosso povo sabe, por experiência própria, que as dificuldades se encadeiam umas nas outras...

– Mas isto é de mais, Tio Ambrósio! Já não bastava a gente pagar o IVA mais alto da Europa, nem ter o imposto de IRS acima dos nossos parceiros comunitários, para termos agora de pagar taxas moderadoras em tudo quanto é sítio, desde os hospitais aos centros de saúde. E a melhor é que algumas escolas estão a escrever aos pais e encarregados de educação que é necessário que participem nas despesas de funcionamento das mesmas, fazendo ver que o dinheiro dos nossos impostos não chega para pagar a educação dos filhos.

– A vida não está nada fácil, Carlos! Como sempre aconteceu! Se tu lesses um livro de história bem documentado, havias de ver que, já na nossa Idade Média o povo se queixava dos pesados impostos a que eram obrigados pelo poder real ou pelos outros grandes senhores. Casos havia em que os agricultores eram obrigados a pagar mais de metade dos frutos que colhiam com grande
esforço e trabalho durante um ano inteiro. Os senhores da terra tinham grandes celeiros onde guardavam o trigo, o centeio e os outros comestíveis, enquanto os que agricultavam viviam praticamente na miséria. E olha que isto aconteceu até há bem pouco tempo. Não era raro, há cem anos atrás (ou até menos), vermos nas nossas aldeias muita gente que tinha uma alimentação mais que deficiente.

– Até parece um contra-senso, Tio Ambrósio!

– Mas nem tudo o que parece, é! Havia agricultores que colhiam seis e sete moios de grão, mas que ficavam reduzidos a uma arca para a sua sobrevivência, pois o senhorio e os outros impostos levavam o resto. E não penses que o
talho estava ali ao pé da porta como hoje, e que o pescado era tão abundante como agora. Num passado não muito longínquo, certas iguarias só chegavam a algumas mesas da classe alta. Por exemplo, a galinha!

– Era tanto assim, Tio Ambrósio?

– Não te faças de ignorante, Carlos! Apesar da crise que hoje vivemos, a maioria das nossas famílias consome agora mais carne numa semana do que então em dois ou três meses. E não penses que estou a exagerar...

– Pelos vistos, o Tio Ambrósio está de acordo com a carestia que agora por aí vai, e sobretudo com os impostos que todos nós, a começar pelos mais pobres, temos que pagar.

– Eu não disse uma aleivosia dessas, Carlos!

– Desculpe, Tio Ambrósio!

– Pronto! Eu retiro a palavra aleivosia e substituo-a por disparate, que sempre é menos agressiva para os nossos ouvidos. No entanto, todos sabemos que um país não pode andar para a frente sem a participação de todos.

– De acordo, Tio Ambrósio! Só que uns pagam mais que os outros, não acha? Veja o que se passa com a actividade bancária! Os lucros que auferem os bancos sobem a dezenas e a centenas de milhões! Só o que eles levam a mais na casa das centésimas aos pobres que lhes pagam juros, por empréstimo para habitação, é um balúrdio, Tio Ambrósio! É verdade que a cada um dos clientes é levada uma pequena quantia. Mas, tudo somado, é uma conta de a gente ficar com os olhos em bico! É como se os bancos todos os meses ganhassem o primeiro prémio do euromilhões. E sem arriscarem uma única moeda!

– Está bem, Carlos! Como dizia o nosso antigo presidente, doutor Soares, todos nós temos o direito à indignação! Todos nós gostaríamos que este mundo em que vivemos fosse mais justo, e que as despesas comunitárias fossem repartidas por todos, consoante os seus lucros. E eu concordo inteiramente com isso, aplaudindo todos os esforços que se vão fazendo para concretizar medidas nesse sentido. No entanto, tu sabes que eu não nasci ontem! A história e os longos anos que eu tenho vivido ensinaram-me que o mais lesado, no fim de contas, é sempre o mexilhão!

– Mas não pode ser, Tio Ambrósio!

– É verdade, Carlos! Eu não podia estar mais de acordo contigo! De resto, o que eu quero dizer é que a história nos ensina que todas as mudanças são lentas...

Lentas de mais, Tio Ambrósio!