AO CALOR DA FOGUEIRA

- Sabe que dia é hoje, Tio Ambrósio?

- Sei, Carlos! E já estava admirado com o facto de me não teres aparecido mais cedo. Eu ~ ontem à missa vespertina para hoje estar disponível para o nosso tradicional magusto de S. Martinho. Mas a uma hora destas já é tarde para prepararmos todas as coisas como mandam as regras do nosso protocolo cabecense.

- Pois é, Tio Ambrósio! Eu atrasei-me um bocado. Devia ter seguido o seu exemplo, indo à missa da véspera, porque o nosso povo costuma dizer, e com razão, que quem vai para/Mar avia-se em terra...

- Mas deu-te a preguiça...

- Não foi isso, Tio Ambrósio! A Joana tem andado engripada e, quando acontece uma desgraça dessas, cai tudo em cima cá do rapaz, E o certo é que, embora esta época não seja de muito trabalho, há sempre a criação a pedir alimento. Mas deixe lá. Que ainda estamos a tempo de preparar tudo convenientemente. De resto, a rapaziada vem provida de quase tudo. Vossemecê, praticamente, só tem que fornecer as castanhas e o espaço, aí no terreiro, para fazermos a fogueira...

-Não é bem assim, Carlos! E as agulhas?

- Devíamos ter vindo tratar disso...

- Isso é verdade. Mas não vieram! No entanto não te atrapalhes que eu, cá com os meus vagares, já resolvi o problema. Aproveitei estes dias de sol que, todos os anos, nos traz o chamado Verão de S. Martinho, e andei por aí, todas as tardes, ajuntar nelas.. Estão ali naquele monte. Tu, que és entendido na matéria, vê se são suficientes!

- Davam para assar um tractor de castanhas, Tio Ambrósio!

- As castanhas estão aqui, já preparadinhas para saltarem para o lume. Se forem precisas mais...

- Chegam e sobram, Tio Ambrósio! Não se esqueça que, como aconteceu nos últimos anos, não vêm só os homens. Trazemos também as mulheres e as crianças. Mas não tenha problemas que comida não vai faltar. A minha cunhada Ermelinda encarregou-se de organizar as coisas para que, além da apreciada castanha, que éo seu valioso, eu diria mesmo inestimável contributo, não faltem os pastelinhos de bacalhau, os rissóis de carne e de peixe, os panados de porco e de peru e os outros acepipes de a gente comer e chorar por mais.

- Ainda bem que está tudo em ordem...

- Não se preocupe! Quanto a bebidas, o Acácio esteve a preparar meio almude de jeropiga e sei que o Lino da Tia Mariana vai aparecer aí com um cântaro de água-pé. Para os mais pequenos, as mães trazem sumos com fartura.

- Eu gosto de vos ver animados, Carlos! Mas agora há que ter muita cautela com as bebidas alcoólicas, sobretudo se houver necessidade de utilizar as viaturas de transporte. Com esta nova lei do zero ponto vinte, os condutores praticamente têm que ficar em seco...

- No nosso caso esse problema não existe. Vêm todos a butes e, que eu saiba, nestes caminhos rurais não vamos encontrar nenhum agente da autoridade, de balão em punho, a controlar todos os que, neste dia de S. Martinho, tenham ultrapassado uns milímetros a fasquia do tal zero ponto vinte. Mas nos outros dias, um homem tem que ter juízo, se não quer ir malhar com os costados à cadeia...

- Também não exageres!...

- É verdade, Tio Ambrósio! Se um cidadão se esquece da medida e ultrapassa os limites previstos na lei para as infracções muito graves, vai a tribunal e, além da multa, pode ainda ser condenado a passar uns dias no chilindró. Já houve muitos casos desses, lho digo eu!

- Em tudo tem que haver equilíbrio, Carlos!

- Eu sei, Tio Ambrósio! Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra! A taxa que estava na lei era mais que moderada! Aqui houve pressões, e das grandes, por parte de certos grupos...

- Quem?

- Sei lá, Tio Ambrósio! 0 Sanguessuga afirma a pés juntos que foram as companhias de seguros a colocar a corda ao pescoço do nosso primeiro que, como vossemecê bem sabe, não tem vocação para mártir. À primeira ameaça, cede logo!

- Estou a ver que estás bem informado. Mas o melhor é deixarmos essa conversa para depois. Daqui a nada começam a aparecer por aí os primeiros convidados e eu quero tudo em ordem. Vá! Ajuda-me aqui a espalhar a caruma!

- Não esteja com pressa, Tio Ambrósio! A rapaziada mais nova, quando aí chegar, trata de todas essas coisas. Para eles isso nem é trabalho. É uma brincadeira...

- 0 que se faz com gosto nem custa tanto...

- Pois não, Tio Ambrósio! 0 nosso povo até costuma dizer que quem corre por gosto não cansa.


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