À sombra do Castanheiro
Como decorreram por aí as vindimas, Carlos?
Uma festa, Tio Ambrósio! Quando as colheitas são fartas e de qualidade, nós ficamos naturalmente contentes. Todos gostamos de ver compensado o esforço que fizemos ao longo de um ano inteiro.
Quer dizer que vamos ter, nas nossas adegas, uma pinga de estalo!
Agora, praticamente, já não há por cá grandes adegas particulares. No geral os produtores mandam as uvas para a cooperativa, embora corram o risco de receber o que lhes pertence e só lá para daqui a dois ou três anos. De qualquer modo, a gente sempre fica aí com o necessário para, nos domingos à tarde, conviver com os amigos, e para os gastos de casa. Quando chegar o S. Martinho e o Tio Ambrósio nos convidar para o tradicional magusto, não vão faltar aí as respectivas pomadas do Sanguessuga, do Lino da Ti Mariana e de outros que ainda persistem em consumir do próprio e dar a provar aos amigos.
E tu, Carlos?
Eu provo, Tio Ambrósio! Provo e também dou a provar, embora não seja essa a minha especialidade nem o meu pendor natural. desde há muitos anos que não toco na bebida fora da refeição principal do dia. Mas nem por isso deixo de conviver com os amigos, sempre que isso se proporciona. No entanto eu sou mais para conversar, para trocar ideias, para tentar saber mais sobre as coisas. É essa uma das razões (não a única nem a mais importante) que me trazem aqui todos os domingos, pois ainda não encontrei ninguém que seja melhor conversador que o Tio Ambrósio. Melhor conversador e mais amigo e mais prudente e acertado nas suas opiniões.
Lá vens tu com esses louvores imerecidos...
É o que eu sinto, Tio Ambrósio! De resto, eu hoje gostava de saber a sua opinião sobre essa polémica que se levantou um pouco por todo o mundo em relação a uma frase proferida pelo Santo Padre Bento XVI na sua visita à Alemanha...
Não se tem falado noutra coisa, neste últimos dias, Carlos! E nem sempre com a devida ponderação e lucidez, mesmo por parte de alguns eclesiásticos que, nestas circunstâncias, são chamados a comentar estas coisas nas televisões e nos outros meios de comunicação social. Ora, tu sabes qual foi a afirmação do Papa?
Eu não, Tio Ambrósio! Mas sei que citou um imperador bizantino do século XIV, a propósito do profeta Maomé, que terá incitado os crentes do islão a espalharem a sua fé usando a espada.
Isso é histórico, Carlos! Esse imperador terá mesmo produzido
essa afirmação, que o Papa agora citou numa lição académica que deu a antigos alunos
seus na universidade onde foi professor durante muitos anos, antes de ser cardeal e de ser
eleito Bispo de Roma. O que acontece é que uma frase retirada do seu verdadeiro contexto
pode ter um sentido muito diferente daquele que se lhe quis dar. E o próprio Papa Bento
XVI, no passado domingo, veio explicar que o que ele verdadeiramente quis transmitir é
que a religião, seja ela qual for, não deve ser transmitida pela
força e muito menos deve servir como motivo de violência entre os povos e entre os
estados.
E não deve mesmo, Tio Ambrósio! Mas, infelizmente, não é assim! As religiões, a começar pela nossa católica apostólica, muitas vezes têm sido motivo para guerras, para lutas ferozes, para batalhas sangrentas. Não é verdade?
Se é, Carlos! A história está cheia de acontecimentos que nos levam a essa conclusão. Ele houve guerras entre cristãos e muçulmanos, entre cristãos católicos e cristãos protestantes... Eu sei lá! Mas, no entanto, devemos distinguir as guerras que tiveram por base motivos religiosos e as que opuseram homens de vários credos, mas com motivações a que era totalmente alheia. É o que acontece neste momento nos vários conflitos que envolvem a humanidade. Eu estou em crer que as guerras actuais têm todas como fundamento motivos económicos. O ocidente, que tradicionalmente era tido como cristão, pretende dominar as fontes de riqueza (sobretudo o petróleo) dos países do médio oriente, onde a prevalência religiosa é o islão.
A luta não é entre uma fé e outra, pois não, Tio Ambrósio?
Claro que não! Nem o cristianismo nem o islamismo apregoam a violência, muito pelo contrário! Mas acontece que o ocidente tem pretendido dominar a economia mundial, através do controle das fontes de energia que estão sobretudo em países islâmicos. E como o ocidente é de matriz cristã (embora muitos pretendam esconder essa realidade), os muçulmanos podem ser induzidos em erro, confundindo o ocidente com o cristianismo que entra hoje em confronto com o islão. São os países que querem dominar a economia mundial.
Mas não é muito fácil distinguir entre uma coisa e outra...
Pelos vistos, não! De qualquer modo, não devem desistir de buscar incessantemente a paz. A paz que nos vem pelo diálogo, pelo respeito mútuo, pela tolerância. E eu estou convicto e, mais do que convicto, tenho a certeza absoluta de que o papa, neste como em outros discursos, tem intenções sérias de promover a paz.