À sombra do castanheiro
Que me diz o Tio Ambrósio a esta coisa de o nosso Governo fechar mais de mil e quinhentas escolas primárias de norte a sul do país?
Digo-te o mesmo que do encerramento das maternidades, Carlos! Contra factos não há argumentos!
Como assim? Então as escolas e as maternidades não são necessárias?
Temos que ser realistas, Carlos! As pessoas vivem onde querem, e ninguém tem nada com isso! Eu sinto-me bem a viver aqui na nossa aldeia. Mas há quem prefira deslocar-se para os grandes centros. Por isso não admira que as escolas, os hospitais e as maternidades estejam onde as pessoas vivem. Lá é que essas estruturas são realmente necessárias. E, por mais reclamações que se façam; por mais que se diga que é preciso dar condições de vida ao interior do país; por mais que os nossos bairrismos tentem travar a desertificação... não há volta a dar-lhe!
Eu sempre pensei que o Tio Ambrósio fosse mais favorável a uma defesa dos direitos da interioridade...
E sou, Carlos! Claro que eu gostaria de ver na nossa aldeia, como antigamente, as duas salas da nossa escola a abarrotar de crianças; gostaria de assistir, duas ou três vezes por ano, ao baptismo de dezenas de meninos, como acontecia em tempos. Mas, sem que a minha vontade interfira seja o que for nessa matéria, eu deparo-me com a relidade que todos conhecemos. Nas nossas aldeias já não nascem crianças. Como é que tu queres que uma escola funcione sem crianças? Se não há crianças, o único remédio é fechar as salas de aulas. O mesmo se diga das maternidades. Eu compreendo que as pessoas queiram uma em cada concelho, porque as senhoras não teriam que se deslocar a cinquenta ou a cem quilómetros para terem os seus filhos. Mas como pode ser viável uma estrutura dessas, se nesse concelho nascem apenas duas ou três dezenas de miúdos por ano?
Quer dizer que não há nada a fazer?
No campo das possibilidades, das hipóteses e dos desejos, há sempre algo que se pode fazer, Carlos! No entanto, que isso não nos leve a construir castelos de areia. Nós podemos lutar contra a desertificação das nossas aldeias, e dos concelhos do interior do país. Mas, ao mesmo tempo, temos que olhar à nossa volta e saber ler a realidade concreta. E a realidade concreta é esta, Carlos! Aqui o nosso Cabeço, que é uma das mais belas aldeias do mundo, perdeu mais de metade da sua população nestes últimos cinquenta anos. E há por aí outras aldeias que perderam muito mais, a pontos de algumas desaparecerem mesmo do mapa. Ele há aí algumas freguesias que não chegam a ter um cento de eleitores, Carlos!
É preciso criar condições nas nossas aldeias, Tio Ambrósio!
É o que todos dizemos, Carlos! Mas vai lá tu dizer aos milhares de emigrantes que daqui saíram, para regressarem! Vai dizer aos que foram viver para Lisboa, para o Porto, para Coimbra que voltem para aqui, para o amanho das suas leiras. Nem um quer regressar, Carlos!
Mas a vida aqui tem outra qualidade, Tio Ambrósio!
Por isso é que eu de cá não saio, Carlos! No entanto não me deixo embalar por certos discursos que por aí se vão ouvindo. Sei que estou aqui e que, nestes tempos mais próximos, seremos cada vez menos e mais velhos. Sei que ainda temos uma sala de aulas a funcionar na noss escola primária (que agora chamam do ensino básico), mas vai ser por pouco tempo.
Não me diga isso, Tio Ambrósio!
Digo, Carlos! Digo, porque essa é a verdade! Eu ainda um dia destes perguntei ao nosso pároco como vamos nós de baptizados. Sabes o que me disse o senhor Padre Feliciano?
A verdade, claro!
E a verdade é que, de Janeiro a Agosto, cá no Cabeço, foram baptizados dois meninos, ou seja um menino e uma menina, para manter o equilíbrio das coisas. E até ao fim do ano não se vê jeito de haver mais nenhum. Ou seja: daqui a cinco anos, quando estes rebentos estiverem aptos para frequentar a escola, o Cabeço vai continuar com uma sala aberta por duas, três ou mesmo meia dúzia de crianças?
Não me está a fazer a pergunta para eu dar uma resposta, pois não?
Eu apenas quero que tu entendas que, por maior que seja o nosso desejo em vermos progredir as nossas aldeias, por mais amor que tenhamos ao torrão onde nascemos e fomos felizes, nada disso impede que estes pequenos lugares vão sendo cada vez menos habitados, e que os grandes centros continuem a crescer de forma desorganizada e quase sempre problemática.
Vossemecê hoje está mesmo pessimista...
É o calo da vida, Carlos!