À sombra do castanheiro

– Santas tardes, Tio Ambrósio!

– Vem com Deus, Carlos! Senta-te aqui, e descansa das fadigas de uma semana de trabalho. Também é para isto que serve o domingo. Ou não é?

– Claro que é, Tio Ambrósio! E olhe que eu bem mereço este dia por semana, para retemperar as forças, quer as físicas quer as espirituais. Porque, às vezes, um homem não anda cansado só nos braços ou nas pernas, mas sente também uma certa fadiga interior.

– Mas tu não tens razão para isso, Carlos! Ou aconteceu-te alguma na vida?

– Não, Tio Ambrósio! Graças a Deus, tudo vai correndo em boa harmonia, quer lá em casa, quer com os amigos. Mas vossemecê sabe como é! De quando em quando todos precisamos de alguma coisa que nos espevite, que corte a monotonia desta vida sempre igual. Sempre um homem a levantar-se às seis, a tratar dos
vivos, a almoçar ao meio dia, a voltar para a faina a tarde inteira...

– E tu chamas a isso monotonia, Carlos? Monotonia é um homem não fazer nada, não ter objectivos na vida. A tua é uma vida cheia de encantos, porque não há nada melhor que contactar directamente com a natureza, encher os pulmões de ar e ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Dá graças a Deus pela vida que tens, rapaz!

– E dou, Tio Ambrósio! Não há dia nenhum que, antes de me deitar, eu não agradeça os dons que Ele me concedeu ao longo de toda a jornada. Isso, porém, não impede que eu, como acontece com toda a gente, esteja assim à espera de um acontecimento que me desperte a atenção, que sirva para comentar com os amigos.

– Ainda queres melhor que o futebol, Carlos? Esta semana não se falou de outra coisa. Antigamente eram só os homens. Mas agora até as melheres discutem, comentam, criticam os árbitros e dão conselhos aos treinadores.

– É verdade, Tio Ambrósio! O futebol tem feito vibrar as cordas do coração dos portugueses, e eu incluo-me no número dos que se enchem de orgulho cada vez que os nossos jogadores levam de vencida outros grupos. Confesso que, por vezes, até sou daqueles que exageram um bocadinho, dando a estas vitórias um sentido mais amplo do que elas verdadeiramente têm.

– Não há mal nenhum nesse pequeno exagero, Carlos! É apenas uma forma de desafogarmos as nossas mágoas e tentarmos ganhar uns pontos para o equilíbrio do nosso abalado orgulho nacional.

– Pois aí é que bate o ponto, Tio Ambrósio! Depois da euforia destas pequenas vitórias, depois dos foguetes e das taças de espumante, dou comigo a pensar que, afinal, tudo isto não passou de uma tentativa de compensação para as nossas falhas noutros campos bem mais importantes da actividade humana. Isto é quase como quem bebe para esquecer...

– O problema também se pode ver por esse prisma. A euforia colectiva pode servir de escape à inércia, à falta de capacidade para enfrentar o que é realmente importante.

– Pois não é, Tio Ambrósio? Quem é que, esta semana, falou do encerramento daquela fábrica de automóveis na Azambuja? Que espaço deram os jornais às centenas de homens e mulheres que, por esta via administrativa, ficaram no desemprego, muitos deles em idade que lhes não permite procurar outro trabalho? Que disseram os jornais das centenas de escolas que vão fechar as portas no interior do país, sobretudo em Trás-os-Montes e nas Beiras, onde a desertificação prossegue a um ritmo que ninguém imagina?

– Há-de haver tempo para se discutirem e apreciarem essas coisas, Carlos! Além disso, a vida já é tão dura, que estas alegrias desportivas são uma bênção que nos ajuda a aliviar as nossas penas. E olha que esta onda futebolística também traz consigo outros benefícios...

– Não vejo quais. Mas é possível!

– Tu tens lido os jonais?

– Quando posso, passo os olhos por eles, no estabelecimento do Sanguessuga.

– E televisão, tens visto?

– Claro, Tio Ambrósio! O noticiário, todos os dias e os encontros de Portugal no mundial de futebol.

– E tens visto ou lido alguma notícia sobre os incêndios que, nesta altura do ano, costumam devorar as nossas florestas?

– Este ano parece que não tem havido que lamentar, Tio Ambrósio! Mas o Verão ainda só agora começou!

– Eu sei! Mas, ou eu muito me engano, ou este sossego em relação aos incêndios deve-se, pelo menos em grande parte, às partidas de futebol entre os nossos rapazes e as outras selecções. Isto é apenas um supor...

Mas tem a sua lógica, Tio Ambrósio!