AO CALOR DA FOGUEIRA
- Arrefeceu o tempo, Tio Ambrósio!
- Não admira, Carlos! Sempre, por altura dos Santos, deixo o assento de madeira que tenho, há muitos anos, debaixo do castanheiro, e instalo-me com armas e bagagens aqui à lareira, aquecendo os pés e desfolhando o rosário das minhas recordações.
- Quem o ouvir até há-de pensar que o Tio Ambrósio sofre de solidão.
- Não, Carlos! Graças a Deus não me faltam visitas, e eu também não deixo de, sempre que há uma aberta no tempo, ir dar uma volta por esses caminhos, vendo como estão os campos e como correm as ribeiras. Aqui no Cabeço só sofre de solidão quem não tem pernas para andar. Doutro modo, sempre se encontra com quem dar à língua e pôr em dia os comentários sobre os últimos acontecimentos. Ainda um dia destes, quase por acaso, me encontrei com o Januário, que é um dos poucos da minha geração que ainda resistem ao reumático e à falta de vista.
- Também o vi um dia destes. Está ali que parece um mancebo em vésperas de assentar praça
- Pois tivemos uma longa conversa, passando em revista os últimos acontecimentos do planeta, desde os bombardearnentos no Afeganistão até ao desvio das atenções dessa desgraça que é a guerra para o alastrar do medo provocado pelo pó branco que dá origem ao antraz, um mal terrível que, na sua forma mais aguda, provoca a morte em poucos dias.
- Essa história do pó branco veio pôr metade da população em parafuso. Um dia destes, lá na mercearia do Sanguessuga (a que ele agora, pomposamente, chama de mini-mercado), a Francelina Inácia não queria levar para casa o pacote do macarrão porque, num dos lados, apresentava alguns indícios de um pá branco. Por mais que lhe garantissem que se tratava de farinha de trigo, proveniente das embalagens ali mesmo ao lado, levantou um tal escarcéu que o pobre do Manuel das Chagas quase se viu na eminência de fechar o estabelecimento para uma desinfestação geral das prateleiras e análise detalhada de todos os produtos suspeitos.
- Essa é a reacção natural de quem vê muita televisão, Carlos! É verdade que houve, nos Estados Unidos, alguns casos de antraz, provocado por um pó enviado em cartas do correio. Mas daí a vermos em todos os pós brancos focos transmissores da doença, valha-nos Deus!
- Mas o antraz é mesmo urna doença mortal, não é, Tio Ambrósio?
- Quando eu era mais jovem, recordo-me de um vizinho nosso, que era bisavô do Quintino, e a quem chamávamos Tio Francisco da Catarina, por ser esse o nome da mulher dele, que morreu muitos anos mais tarde, se calhar já na tua lembrança...
- Não estou a ver!
- Pois o Tio Chico da Catarina morreu com uma ferida ruim no ombro esquerdo. 0 povo, por aí, dizia à boca pequena que se tratava de um antraz, Foi esse, pelo menos, o diagnóstico do barbeiro Matias. E é bem possível que fosse. A ferida começou a alastrar do ombro para as costas e, em três ou quatro meses, levou à cova aquele homem que, uns tempos antes, tratava a enxada por tu e parecia ter saúde para dar e vender.
- Mas essa forma de doença hoje é perfeitamente curável...
- Pelo que tenho ouvido dizer aos mais reputados especialistas na matéria, se o antraz atingir apenas a pele, o exterior do corpo, hoje há medicamentos para debelar a maleita. Mais graves são as outras duas formas. A da ingestão, juntamente com os alimentos, e a da inalação pelas vias respiratórias, instalando-se o vírus nos pulmões. Para estes dois casos parece não haver cura possível. Em pouco mais de unia semana entrega um cidadão a alma ao Criador.
- Então é mesmo para andarmos assustados, não é, Tio Ambrósio?
- Sem exageros, Carlos! De resto, há por aí alguns artolas que são bem capazes de brincar com coisas sérias. Tu já viste, por exemplo, um aluno reprovado em matemática a enviar ao mestre uma carta recheada de pó de talco.
- Não esteja a lembra-lhe essas coisas, porque para o mal já eles têm imaginação que chegue. Assim lhes desse para o estudo.
- Tens razão, Carlos! Há coisas que nem ao diabo lembrariam. Por isso é melhor ficarmo-nos por aqui. E, como a chuva cai lá fora, aproveitemos a ocasião para provar as minhas castanhas que estão uma verdadeira delícia...
- E este pó branco que têm em cima será apenas cinza?
- Não mereces resposta, Carlos!
- Desculpe, Tio Ambrósio!
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