À sombra do castanheiro

– O Tio Ambrósio, desta vez, excedeu todas as minhas expectativas, caramba! Eu já sabia que vossemecê não ia resistir ao apelo de assistir às nossas fogueiras em honra de Santo António. Mas aquele equipamento ficava-lhe mesmo a matar. Eu quase nem o conhecia!

– Olha! Deu-me para aquilo! Qualquer de nós tem o direito de fazer um disparate na vida!

– Disparate? Não vejo em quê! Não é disparate nenhum um homem envergar, com orgulho, a camisola com as cores nacionais. Um pouco de patriotismo não fica mal a ninguém, e até acaba por ser um lenitivo para as muitas agruras que todos vamos sofrendo no dia a dia.

– Desta vez foi assim! O meu afilhado Jacinto, que já não via há uma data de tempo, passou por aqui e quase fez uma aposta comigo.

– Nessa não acredito! O Tio Ambrósio a fazer apostas! Está o mundo de pés para cima...

– Eu não te disse que chega a hora de todos fazermos uma asneira? Mais tarde ou mais cedo, todos caímos na tentação. E o tentador, desta vez, foi o meu afilhado, que vinha envergando uma bela camisola vermelha, com o número treze nas costas. Disse-me que era igualzinha à que o Eusébio tinha vestido no campeonato do mundo de há quarenta anos, na Inglaterra, e que me desafiava a ser capaz de a envergar, ao menos durante o tempo em que estou a assistir aos jogos em que participa a nossa selecção. E vai daí, veio-me à cabeça um assomo de patriotismo e declarei-lhe que sim, que se tinha outra igual no carro, que lhe ficava com ela e que havia de a vestir em todas as partidas. Pior do que isso! Disse-lhe que estava convidado por ti, para assistir às vossas cantorias nas fogueiras do Santo António, e que levaria nesse dia a camisola para fazer ver a muita juventude como é que um velho português torce pela sua pátria. Aí tens a explicação, Carlos!

– E a moda pegou, Tio Ambrósio! De tal modo que o Sanguessuga já teve que encomendar mais umas dezenas
delas, porque as duas dúzias que o viajante lhe cá deixou não chegaram nem para metade da procura! Aquilo é que tem sido facturar! O Manuel das Chagas até me disse que é pena não haver um campeonato do mundo pelo menos umas três vezes por ano!

– A esse puxa-lhe o patriotismo mais para a conta bancária!

– Não se lhe pode levar a mal, Tio Ambrósio! Além disso ele não as vai enfiar pelos olhos a dentro a ninguém. São os clientes que exigem! Até as mulheres! Veja bem, Tio Ambrósio! Até a minha Joana, levada certamente pela irmã, pela Ermelinda, foi ao Sanguessuga buscar camisolas vermelhas para todos. Para ela e para os filhos, que isto quando respeita a patriotismo têm que ser todos penteados com o mesmo pente.

– Quer dizer que também tens uma dessas?

– Por acaso não, Tio Ambrósio! É a Joana quem me compra todos os precisos, desde as peúgas às ceroulas, passando evidentemente pelas camisas e pelos lenços da mão. Mas, desta vez, mandou-me comprá-la a mim, porque não sabia o número que eu gostava de vestir. Ora ela está farta de saber que, em roupa de cima, eu visto um número grande, para andar à vontade.

– Não era a esse número que a Joana se referia, Carlos!

– Isso vim eu a saber depois, quando reparei que a dela tem o sete nas costas, e as dos pequenos, o onze, dezassete e o vinte e um. Por baixo os nomes dos respectivos jogadores. Está a ver, Tio Ambrósio?

– Pois claro que estou! E tu, depois dessa explicação, foste a correr ao Sanguessuga para ele te vender uma.

– Fui, Tio Ambrósio! Mas sem número! Eu preferia assim uma que não estivesse muito identificada com este ou com aquele número, com este ou aquele nome, porque essas coisas costumam ser passageiras, e queria uma coisas para ficar!

– Compraste uma bandeira!

– Isso já a Joana tinha comprado também! Uma bandeira enorme, tipo XL, que ocupa a varanda lá de casa de uma ponta à outra. Lá na nossa rua não há outra igual!

– Estou a ver que ficaste sem camisola, sem bandeira...

– Mas comprei este cachecol, Tio Ambrósio! É um bocado quente, agora para o Verão! Mas leve o diabo as paixões! O próximo desafio vamos vê-lo todos no salão da Junta, porque o Lopes arranjou para lá um daqueles ecrãs quase tão grandes como o próprio campo de futebol. Não quer ir lá ter connosco?

– Não me comprometo, Carlos! Mas, convosco ou aqui, podes ter a certeza que não falto ao desafio. Eu sempre gostei de desporto. E agora, à medida que os anos passam, em vez de diminuir esse gosto, dou comigo a torcer ainda mais pelos nossos.

– Não há nisso nenhum mal, Tio Ambrósio! Pois não?

– Não, Carlos! Se não houver exageros, não é por aí que vem mal ao mundo.