À sombra do castanheiro
Desta vez Tio Ambrósio meteu-se numa embrulhada, que alto lá com ela! Não sei mesmo se não irá ter aqui alguma manifestação à sua porta, exigindo que se retrate...
Queres ver que temos sarilho, Carlos? Mas de que hei-de eu retratar-me, afinal? Estás a deixar-me embasbacado...
Não é para tanto, Tio Ambrósio! De qualquer modo posso dizer--lhe que as mulheres do Cabeço e arredores não ficaram nada agradadas com a sua opinião sobre o encerramento de algumas maternidades. E alguns homens também não!
E que lhes hei-de eu fazer, Carlos? Limitei-me, pura e simplesmente, a manifestar a minha opinião que, como disse, vale apenas o que vale e não impõe o silêncio a ninguém. No entanto, quero dizer-lhe uma coisa, Carlos!
Diga, Tio Ambrósio!
Nós, os portugueses, temos uma tendência para estar sempre em desacordo com o que os outros fazem ou podem dizer, discordantes militantes.
Isso vem de longe, Tio Ambrósio! É aquela história velha do ser morto por ter cão e morto por não ter...
Mais ou menos isso, Carlos! Mas conta-me cá essa da
manifestação que se prepara para vir
à minha porta. Olha que eu até gostava! Já me aconteceu muita coisa na vida, mas nunca
tive a honra de ver uma manifestação popular a bater-me ao ferrolho. Até que ia ter
muita graça!
Estou a falar a sério, Tio Ambrósio! O que lhe vale a si é que a minha cunhada Ermelinda, que é sempre a cabecilha desta coisas entre as mulheres do Cabeço, desta vez pôs água na fervura de algumas feministas mais exaltadas, e concordou em deixar que o Tio Ambrósio pudesse exprimir livremente o seu pensamento. Mas não é isso que as vai fazer desistir de reivindicarem um médico especialista em cada centro de saúde, uma maternidade em que não esteja a mais de trinta quilómetros da residência de cada parturiente...
E tudo o mais que lhes vier à cabeça, Carlos! Valha-nos Deus que bem pode! Além de discordantes militantes há outra coisa que nos caracteriza...
Qual, Tio Ambrósio?
Nunca somos pobres a pedir! E agora já nem é só a pedir. É a exigir!
E o Tio Ambrósio acha mal?
Eu acho que temos de ser ponderados em todas as coisas, Carlos? Um país com dez milhões de habitantes, com poucos recursos económicos, não se pode dar ao luxo de ter uma unidade de saúde em cada rua, uma escola em cada povoação onde não nascem crianças. Tu leste aquela notícia que vinha nos jornais da passada semana, que fala dos impostos dos portugueses?
Apenas por alto!
Pois lá dizia que cada português está a trabalhar desde o dia 1 de Janeiro até perto de 20 de Maio exclusivamente para pagar os impostos ao Estado. Isto quer dizer que a administração do país custa a cada português mais de um terço daquilo que ganha.
E que tem isso a ver com os centros de saúde, com as maternidades e com as escolas?
Ora essa, Carlos! Tem a ver, porque, como dizem os especialistas na matéria, temos urgente necessidade de racionalizar recursos.
Não se podem ver as coisas apenas em termos economicistas...
É verdade, Carlos! Temos que ver as coisas sempre em termos humanistas, em termos de serviço às populações. Mas o humanismo está sujeito, como tudo, a alguns limites. Eu sei que devemos colocar a pessoa, o cidadão, o indivíduo sempre em primeiro lugar. Mas será esbanjando os poucos recursos que temos que pomos o homem em primeiro lugar?
Não lhe sei responder, Tio Ambrósio!
Nem eu, Carlos! Apenas faço esta pergunta para ajudar à minha
e à tua reflexão. Porque e que me continua a
parecer é que todos nós somos tremendamente egoístas. Eu próprio me incluo no número,
porque também eu gostava de ter uma farmácia na minha rua, quando a tenho a um
quilómetro de distância, esquecendo-me que há outros velhotes como eu que têm de andar
trinta ou quarenta quilómetros de camioneta para chegarem à mais próxima de sua aldeia.
Afinal está a dar-me razão! Devemos ter uma farmácia em cada aldeia!
Isso nem parece teu, Carlos!
Eu sei que estou a exagerar um bocadinho, Tio Ambrósio! Mas olhe que é só um bocadinho...
A isso chamar-se-ia desorganização, Carlos! As pessoas devem organizar-se de modo a que todos tenham o necessário. No entanto é impensável que se criem estruturas para as pessoas nos locais onde não há pessoas. Uma escola tem sentido onde haja meninos e meninas. Fazê-la noutro lado, mesmo que seja por bairrismo, é esbanjamento de recursos. Numa linguagem cristã eu diria que isso é um pecado contra a pobreza evangélica.
Não entendo bem porquê, Tio Ambrósio! Eu penso que as escolas deviam estar abertas mesmo que tivessem só meia dúzia de crianças...
Respeito a tua opinião, mas não concordo com ela, Carlos! O
erário público não é um poço sem fundo! Por isso os governantes têm não apenas o
direito, mas sobretudo o dever de manter as estruturas existentes ou de criar outras
novas na justa medida das necessidades das populações não esquecendo que o que se
esbanja num lado acaba por faltar no outro.
Não sei se esse raciocinio vai agradar muito aos militantes discordantes.
Logo se verá, Carlos! Mas não te preocupes que o sol amanhã não deixa de nascer por causa disso.