Ao calor da fogueira
– Que é feito de ti, Carlos, que te não ponho a vista em cima há quase duas semanas?
– Só faltei no domingo passado, Tio Ambrósio, e foi por uma boa causa. Como tem acontecido nestes últimos anos, em domingo de Páscoa, vou aí, por toda a freguesia, levar às famílias o anúncio da ressurreição de Cristo. É um velho costume nosso, que eu não quero deixar perder. Nem eu, nem o sanguessuga, nem o meu cunhado Acácio...
– Nem eu, Carlos! Já não tenho pernas para ir a todas as casas, mas sou um defensor da visita pascal pelo que ela significa e pelo que ela proporciona.
– É o que se chama dois em um...
– Mais ou menos, Carlos! É que a visita pascal a todas as casas da freguesia tem um belo significado, pois se trata do anúncio da mais maravilhosa notícia do cristianismo: Jesus de Nazaré, que padeceu o suplício da cruz, ressuscitou como tinha dito. está vivo! Aleluia!
– Foi precisamente isso que nós andámos a anunciar, Tio Ambrósio! Fomos, em nome da comunidade cristã, a todas as famílias levar a alegria da ressurreição.
– A visita pascal só por esse anúncio já valeria o sacrifício que se faz. Mas o benefício é dobrado, Carlos, porque permite e ocasiona o encontro das pessoas, dos amigos e dos vizinhos. E isso tem muita importância, cá no meu entender.
– Se tem, Tio Ambrósio! E posso dizer-lhe que até há casos de pequenas desavenças que se resolvem nesta altura. Azedumes antigos e outras coisas parecidas, que afastavam as pessoas e que o encontro, por esta ocasião, acaba por sanar.
– Eu nem estava a pensar neses casos, Carlos! O convívio entre as pessoas é sempre saudável, porque alimenta a amizade e, no fundo, gera movimentos de fraternidade. Só quando nos encontramos e convivemos uns com os outros é que nos apercebemos que um homem sozinho é um pobre, eu diria mesmo um triste. Que vale um homem sozinho, Carlos?
– A essa pergunta eu não consigo responder-lhe, Tio Ambrósio, porque nunca tive a experiência da solidão. Mesmo quando ando sozinho aí pelos campos, nos trabalhos agrícolas, não sinto que esteja só. Eu penso que sou um homem sociável, Tio Ambrósio. Gosto de partilhar com os outros as minhas opiniões e de ouvir o que dizem os mais velhos. Sobretudo os mais velhos, porque a experiência continua a ser a grande mestra da vida.
– Tu ainda és de bom tempo, Carlos! Mas hoje tudo está mudado! Uns isolam-se porque querem. Outros são afastados do convívio humano por conveniência de alguns.
– E depois há o convívio virtual. Pelo menos é assim que chama o Liberato àquele convívio que se gera à frente de um teclado de computador, dialogando com alguém de quem se não conhece o nome, pelo menos o verdadeiro, porque nesta coisas ninguém gosta de dar a cara.
– Não se conhece o nome, não se conhecem as feições, não se sabe a sua origem nem o que pretende na vida. Eu, quando alguns rapazes me dizem que passam horas a contactar com alguém que lhes aparece do outro lado da linha, a fazer perguntas e a responder a perguntas, fico a pensar que estamos perante homens vindos de outro planeta. Pois se é tão bom a gente apertar a mão a um amigo, se é tão bom conversarmos assim frente a frente e de olhos nos olhos, como eu agora estou a fazer contigo, por que motivo se hão-de esconder atrás de um computador? Porque não falam uns com os outros nas praças, nas ruas, ou à janela de casa, como antigamente?
– O Tio Ambrósio tem razão! As pessoas, hoje, têm uma grande tendência para se isolarem. Mesmo nas nossas famílias isso se vê. Em vez de falarem uns com os outros, vai cada um para seu canto. O pai põe-se a ver o futebol, a mãe a novela e os filhos vai cada um para o seu quarto brincar com o computador ou responder às mensagens que lhe enviaram pela internet.
– É estranho, não é, Carlos?
– Mas é realmente o que se passa, Tio Ambrósio! Dependemos cada vez mais desses novos meios de comunicação...
– Dependemos, Carlos! Dizes bem, porque esses meios, de facto, podem criar dependência, podem
viciar quem os utiliza sem regra. Ou tu julgas que só é viciado o que fuma, o que bebe, ou o que usa outras drogas? Olha que eu conheço alguns casos de jovens, e até de adultos, que estragaram as suas vidas por causa do vício da internet. E tu, se calhar, também conheces alguns...
– Conheço, Tio Ambrósio! E nunca digo que desta água não beberei, porque o orgulho não é bom conselheiro. Vossemecê já imaginou que, num futuro próximo, em vez de nos encontrarmos aqui, ao calor da sua fogueira, ou à sombra do seu castanheiro, o podemos fazer cada um em sua casa com os olhos postos no ecrã dum computador?
– Tu tens cada lembrança, Carlos! Velha-te Deus Nosso Senhor!