À sombra do castanheiro
- O Tio Ambrósio sabe que vamos ter notas em euros a valerem cerca de cem contos?- Sei, Carlos! São as notas de quinhentos euros. Mas a essas, possivelmente, nunca lhes verei a cor, nem mesmo naqueles meses em que pagam aos velhotes a reforma a dobrar. Tu repara que, a partir de Janeiro, o carteiro, quando me entregar a reforma, a mim e aos outros reformados agrícolas do Cabeço, nem uma nota de duzentos euros nos entrega, pois todos temos uma pensão inferior a quarenta contos.
- Mas se lhe pagarem em notas de cinco euros, já recebe um maço delas, Tio Ambrósio! Pois se cada nota de cinco euros corresponde mais ou menos a mil escudos, o baralho é já significativo. São trinta e tal notas!
- Uma fartura, Carlos! Graças a Deus que nós, aqui nas aldeias, sempre temos mais umas coisas para aguentar o barco. Por exemplo, este ano tenho aqui duas ou três arrobas de castanhas que, se lhes não der o bicho, me vão dar para o inverno inteiro.
- A esse propósito, o Tio Ambrósio já sabe quanto vale, na nova moeda, um quilo de castanhas?
- Lá nas cidades, um quilo de castanhas é capaz de custar perto de dois euros. Mas aqui nem um euro nos dão por elas. Os intermediários é que se abotoam com a maior fatia. Ainda há dias aí me apareceu um a perguntar se eu vendia. Disse que não, que a minha produção é apenas para consumo doméstico. De qualquer modo perguntei a como corria o câmbio. Sabes a quanto?
- Eu agora já começo a raciocinar em euros, Tio Ambrósio! Deixe cá ver! Ofereceram-lhe pr'aí a cinquenta cêntimos o quilo, ou ainda menos...
- Ainda menos, Carlos! Pagava-mas a noventa e cinco. Porque se fosse a cinquenta cêntimos de curo, o preço equivalia a cem mil réis. Não é verdade?
- É, Tio Ambrósio! Estou a ver que vossemecê também já se não vai deixar enrolar com a mudança da moeda. Porque esse é um dos perigos que todos corremos a partir de Janeiro, sobretudo os que estiverem menos informados e menos calhados com estas coisas. Vamos ao caso do vinho. Ainda temos aí alguns agricultores que, em vez de mandarem a produção para a adega cooperativa, optam por fazer o vinho em casa, vendendo-o depois aos chamados apreciadores do produto do lavrador. A quanto devem eles agora vender o almude?
- Depende, Carlos! Cada terra tem seu uso, e o almude não apresenta a mesma medida em todos os lugares. Mas, para nos entendermos, falemos de almudes de vinte e cinco litros, que são a medida mais corrente e habitual. Até aqui o almude do tinto corria a quanto? A quatro contos?
- A cinco, Tio Ambrósio! E alguns lavradores, sabendo o néctar que têm em casa, conseguem passá-lo mesmo a seis contos.
- Mas geralmente corre a cinco. Portanto isto quer dizer que a colheita deste ano, a tirar lá para depois de Março ou Abril, deve correr a vinte e cinco euros o almude. Nunca menos que isso.
- Contas certas, Tio Ambrósio! Mas não se admire que apareçam por aí alguns espertalhões a querer tirar partido da nova moeda, oferecendo muito menos que o valor real do produto.
- Que vai aparecer gente dessa, eu não duvido, Carlos! Mas, tirando um caso ou outro, estou em crer que, no mês de Março, já os nossos lavradores fazem tão depressa as contas em euros como o Sanguessuga agora as faz em escudos.
- Nisso é um ás, Tio Ambrósio! Vai a gente aviar-se disto e daquilo e, no fim, é um ver se te avias! Tanto de massa, tanto de feijão, tanto de peixe congelado, tanto de farinha... dá tanto! E dá mesmo, Tio Ambrósio! Depois confirma-se na máquina de calcular e não varia um centavo.
- Pois acredita que, lá para Março, já o Sanguessuga esqueceu as notas de cinco contos e o que quer ver na caixa são as de cinquenta euros, que equivalem a cerca de dez mil escudos. Quem sabe e tabuada em escudos, depressa a aprende em euros. A música é a mesma. Só a letra é que muda um bocadinho.
- De qualquer modo, nunca é demais as pessoas estarem prevenidas, sobretudo as que têm mais idade.
- Como eu, Carlos!
- A si já ninguém lhe faz o ninho atrás das orelhas, Tio Ambrósio!
- Até ver, Carlos! Amanhã ninguém sabe, porque o futuro a Deus pertence.
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