Ao calor da fogueira
– O Tio Ambrósio continua embrenhado nas suas leituras. Cá no Cabeço, semelhante a si só o Liberato. Esse tem alma de andar a ler três livros ao mesmo tempo, um de religião, outro de economia e outro de história de Portugal. Só eu é que não tenho pachorra nenhuma para essas coisas, Tio Ambrósio! Para ler umas páginas tenho que pedir ao Padre Feliciano que me dê essa penitência.
– E ele vai nisso?
– Vossemecê sabe bem que ele é a bondade em pessoa.
E olhe que a penitência de ler certos livros que por aí se escrevem não é nenhuma pêra doce. O Liberato ainda há dias me mostrou um exemplar de um
jovem autor português, com tantas trancadas na gramática, que eu até fiquei com dúvidas se o rapaz não nasceu no pólo norte ou noutro lugar distante...
– Às vezes é moda, Carlos! Aqui há anos atrás eu li um livro de poemas que não tinha qualquer tipo de pontuação, não usava maiúsculas para os nomes próprios e outras coisas que tais. E parece que foi um sucesso de vendas! Estás a ver como são as coisas?
– Ao autor dessa poesia bárbara é que fazia bem uma das penitências quaresmais do nosso prior Feliciano. Assim do género daquelas que os professores, aqui há anos, costumavam dar nas escolas aos alunos que tinham mais dificuldade em escrever certas palavras que se consideravam mais difíceis. Havia, por exemplo, os que confundiam sempre os esses de sapo com os cês de cão, ou os cês de cedilha, que por vezes causavam alguma barafunda. Mesmo quando eu, já rapaz feito, tirei a minha quarta-classe de adultos, o professor obrigou-me, numa certa ocasião, a escrever no carderno, cinquenta vezes
seguidas, a palavra construção.
– Coisa simples, Carlos!
– Para quem sabe, Tio Ambrósio! Mas a mim parece que me puxava o
lápis para a asneira e, em vez de usar o cê cedilhado, usava dois esses. Outra confusão que surgia a toda a hora era do esse com o zê. Umas vezes escrevia-se cozer com zê; depois já se escrevia com um esse...
– Dependia do significado. O primeiro cozido é de cozinhado; e o segundo é de linhas e dedal.
– Quando uma pessoa sabe, tudo é fácil, Tio Ambrósio! E eu, como sabia pouco, lá tinha de repetir, linha abaixo de linha, a palavra que o professor me mandasse. A isso devo, de resto, o facto de hoje escrever sem muitos erros ortográficos, o que não acontece com todos a eito.
– Ai não acontece, não, Carlos! E se tu pensas que é só aqui, a nível dos pequenos que andam na escola primária, que agora se diz que é básica (como se não fosse a mesma coisa!), enganas-te bem enganado. Dizem-me pessoas bem informadas que, hoje em dia, até os alunos universitários dão erros de palmatória.
– Só alunos, Tio Ambrósio?
– Se calhar também alguns professores, Carlos! Por isso eu acho muito bem que se faça aí um exame geral ao pessoal que está no ensino. Pois tu achas que quem escrever com erros de palmatória deve continuar a ensinar?
– Como é que alguém pode ensinar o que não sabe, Tio Ambrósio?
– Então também estás de acordo com o exame!
– Em princípio estou, Tio Ambrósio! Mas tenho uma dúvida metódica...
– Estás a falar caro, Carlos!
– Essa da "dúvida metódica" é uma expressão que eu ouço vezes sem conta ao Liberato. Não sei bem o que quer dizer, mas suponho que é assim uma dúvida que nos aparece sempre na mente quando nos surge qualquer questão.
– E a metódica, neste caso do exame a fazer aos professores, quer exactamente dizer o quê?
– Quer dizer que eu não sei se existe alguém, acima de toda a suspeita, capaz de avaliar os conhecimentos gramaticais dos outros. o Tio Ambrósio, por exemplo, pode pertencer ao grupo dos avaliadores. O Liberato também me
parece um homem com competência. Mas, cá no Cabeço, nem mais um!
– Para que queremos nós um parlamento em Lisboa, Carlos?
– Deixe-me rir, Tio Ambrósio! Até falar eles falam às três pancadas, quanto mais escrever! A muitos deles, o que lhes vale é que, agora, os computadores já são inteligentes e corrigem as palavras escritas de modo incorrecto.
– Estás a ver as vantagens das novas tecnologias?
– Fraca vantagem, Tio Ambrósio! Mas, olhe! Enquanto não se conseguir voltar ao velho método de os alunos
serem obrigados a escrever cinquenta vezes as palavras difíceis, do mal o menos!
– Mesmo assim, com os computadores todos, sempre há delas que escapam. Arreliadoras, algumas; divertidas, outras; mas todas escusadas se o nosso ensino tivesse outra seriedade.