Ao calor da fogueira

– Há dias, Tio Ambrósio, em que me sinto um autêntico ignorante. Sou assim como um boi a olhar para um palácio. Entende?

– Se entendo, Carlos! Sentimento semelhante me tem assaltado vezes sem conta, às vezes até diante de um grupo de crianças. De certas coisas elas, as crianças, sabem muito mais do que eu. Olha, por exemplo de computadores, e de internetes e de correios electrónicos. Tudo matérias em que sou o mais ignorante dos seres vivos.

– E de opas, o Tio Ambrósio entende?

– De quê, Carlos?

– De opas! Então vossemecê não tem ouvido aí na televisão e na rádio que um banco quer lançar uma opa a outro, oferecendo pela dita não sei quantos milhões de euros?

– Uma opa de euros? Se calhar até será daí que vem o nome de Europa...

– Isso talvez não, Tio Ambrósio! A Europa já se chamava assim muito antes de surgirem essas modernices das opas actuais, que, pelos vistos não têm nada a ver com as opas de antigamente. Quando o Sanguessuga me veio com essa das opas a valerem milhares de milhões da moeda corrente eu até senti a tentação de me desfazer da minha. Está a entender?

– Estou, Carlos! Mas a tua opa é outra! É igual à minha, de irmão da confraria do Santíssimo Sacramento
do Cabeço, que é uma instituição veneranda, fundada pelos nossos avós no tempo do Marquês de Pombal, e que tem como principal finalidade a promoção do culto da santíssima Eucaristia, dentro e fora da missa.

– Eu sei, Tio Ambrósio! Isso até faz parte do compromisso que todos os irmãos devem fazer quando se inscrevem, e que devem renovar pelo menos uma vez por ano.

– São, por isso, opas diferentes, Carlos!

– Destas nossas entendo eu, que até já fui mais de uma vez o juiz da irmandade. Das outras é que eu não entendo nada!

– E eu pouco te posso ensinar, Carlos! A economia e as finanças nunca foram o meu forte, talvez porque Deus me não tenha concedido o dom de perceber dessas coisas e para a contemplação da natureza.

– Não se pode ter tudo, Tio Ambrósio! E, se quer que lhe diga, eu penso que é melhor entender de alhos, de cebolinho e de videiras, do que dessa coisa de números, que torna um cristão insensível, calculista e avarento.

– És um homem resignado, Carlos!

– Acha, Tio Ambrósio? É que eu continuo a ter sérias dúvidas sobre mim próprio!

– A dúvida é o melhor caminho para se encontrar a verdade, Carlos!

– Pois eu tenho algumas certezas e muitas dúvidas, Tio Ambrósio! Isto não é anormal, pois não, Tio Ambrósio?

– Sabes bem que não, Carlos! Mal de nós se as dúvidas não nos assaltassem todos os dias, obrigando-os a reflectir e a procurar soluções. Tu já viste que quem não tem dúvidas deixou de ter necessidade de procurar? E a nossa vida tem que ser uma contínua busca, na linha do que nos diz Jesus no Evangelho: "procurai e achareis, porque todo aquele que procura encontra".

– Mas não sei se esta dúvida sobre mim próprio, esta a que agora me refiro tem alguma coisa a ver com essa atitude de desejo de descobrir a verdade. Se calhar até há verdades que é melhor um homem nunca descobrir!

– Não sei se te estou a entender, Carlos!

– Nem é fácil, Tio Ambrósio! É que eu gosto de ser assim como sou. Gosto desta vida que Deus me deu. Gosto de enxertar pessegueiros e cerejeiras, gosto de empar vinha, gosto de ver crescer as searas que eu próprio semeei. E depois não me calo, e digo que é melhor entender destas coisas de que eu gosto, do que entender daquelas que eu ignoro em absoluto. Não sei se me faço entender, Tio Ambrósio!

– É melhor exemplificares, Carlos!

– Tomemos o caso dessas opas que agora estão na ordem do dia, e que eu penso que sejam negócios chorudos, com lucros à mistura e outras coisas próprias do mundo do capital. Eu não entendo nada dessas coisas. E, como não entendo, digo que é melhor entender da sementeira das favas, da ceifa das videiras.

– E depois, Carlos?

– Depois acontecce que eu tenho dúvidas sobre a sinceridade da minha atitude, Tio Ambrósio!

– Troca lá isso por miúdos, Carlos!

– Não é fácil, Tio Ambrósio! Eu vejo o engenheiro Belmiro a dizer que vai lançar uma opa (eu penso que isto se deve escrever com letras maiúsculas), vejo o director de um banco a dizer que, com uma opa, vai adquirir outro banco. E, embora não perceba patavina desses negócios, eu duvido se não gostaria de entender, de estar no lugar de um desses sujeitos que, só com uma palavra, são capazes de fazer mudar de dono uma empresa das grandes.

– Essa é mesmo uma das tentações do maligno, Carlos!

Mas não vais ser fácil eu cair nela, tio Ambrósio!