À sombra do castanheiro - O Tio Ambrósio parece que não anda nada preocupado com a mudança da moeda de escudos para euros. Será que vossemecê não tem dúvidas sobre o modo como podemos e devemos utilizar o novo dinheiro? - Dúvidas tenho, Carlos! O que não tenho é dinheiro! Por isso vou deixando essas preocupações para quem andou a amealhar ao longo dos anos, para quem tem chorudas contas bancárias, ou mesmo para quem guarda um baralho de notas debaixo do colchão. - Nem toda a gente consegue ficar assim, praticamente impávido e sereno, perante uma mudança que podemos qualificar de grande importância para a economia dos cidadãos que habitam uma dúzia de países da Europa. - Eu sei, Carlos! O que acontece é que eu já não nasci ontem! Eu já sou do tempo em que o dinheiro se contava por réis, do tempo das notas de tostão, do tempo em que um cruzado novo era uma pequena fortuna. Ora, se eu não tive dificuldade de maior quando se passou dos vinténs em cobre do senhor D. Carlos para os escudos e os centavos em bronze ou mesmo em ferro do tempo republicano, também não vai ser agora que deixarei de dormir só porque os poucos escudos que tenho vão ser trocados por meia dúzia de euros. - Aí é que bate o ponto, Tio Ambrósio! O maior problema, cá no meu entender, vai surgir no momento de trocar o dinheiro velho por dinheiro novo. Há que ter as devidas cautelas. - Sobretudo em relação aos oportunistas, Carlos! Esta época de mudança de moeda é propícia para os vigaristas porem em acção os seus planos de meterem a mão no bolso alheio. Olha o que aconteceu em Espanha, onde já foram apanhados vários falsificadores de notas de euro. Como as notas começam a circular no dia primeiro de Janeiro, preparavam-se para lançar nesse dia uns largos milhares delas a troco das antigas notas que, como tu sabes, continuam a circular até ao último dia de Fevereiro. Ou seja: na confusão dos dinheiros, dariam euros falsos, recebendo pesetas e escudos verdadeiros. Que grande negócio! ~ Que grande vigarice, Tio Ambrósio! - Por isso eu daria um conselho a todos os que são da minha idade, ou mesmo mais novos do que eu, e que tenham umas notas arrecadadas lá em casa ou até escondidas no telheiro. Não as troquem a nenhum desconhecido que se apresente como empregado de um banco ou como funcionário de qualquer repartição de finanças. Deixem estar as notas quietinhas, mesmo que lhes venham dizer que em Janeiro o dinheiro é novo. As notas que lá estão em casa têm valor durante muito tempo, e podem circular ainda durante os meses de Janeiro e Fevereiro. - Mas não se pode trocar o dinheiro de agora pelos euros do futuro, Tio Ambrósio? - Não! Antes de Janeiro, não! Se aparecerem agora, aqui no Cabeço, uns fulanos quaisquer a dizer que trazem euros, são vigaristas. Ninguém pode trazer euros no bolso antes do primeiro de Janeiro. E depois, na devida altura, mas sem pressas, quem tiver dinheiro guardado em casa vai trocá-lo por euros ao banco e só ao banco. Entendes? - Eu entendo, Tio Ambrósio! Mas porque há-de ser só no banco? - Para não corrermos o risco de sermos enganados. - De qualquer modo vai ser uma senhora confusão, Tio Ambrósio! - Nos primeiros dias, talvez! Mas depois, com as moedas e notas na mão, todos nos vamos habituar depressa. O importante é ninguém perder a calma e não se precipitar. Vale mais ficar com o dinheiro velho na mão do que correr o risco de ser vigarizado por tantos oportunistas que aí hão-de aparecer como cogumelos. - Está visto! Se alguém vier ter comigo e me perguntar a este propósito da nova moeda, o que vou dizer-lhe é precisamente que fique com as notas de escudos pelo menos até fins de Janeiro ou princípios de Fevereiro. Depois, quando a poeira assentar, vai-se ao banco ou à caixa, com toda a calma, e trocam-se as velhas notas pelos euros novinhos em folha. - Sem tirar nem pôr, Carlos! Diz às pessoas, sobretudo aos velhotes da minha idade, que guardem as notas. Eu, as poucas que tenho, vou guardá-las despreocupadamente, pois sei que tenho muito tempo, depois do início do próximo ano, para as trocar. - É preciso não entrar nas jogadas dos vigaristas, Tio Ambrósio! - Sem mais, Carlos! Lembrem-se que o seguro morreu de velho!
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