Ao calor da fogueira

– O Tio Ambrósio, hoje, veio participar connosco na festa da democracia. Vai haver foguetes e tudo!

– Tu não estás a precipitar os acontecimentos, Carlos? Olha que em democracia não há vencedores antecipados.

– Apesar disso, garanto-lhe que vai haver foguetório! Cá no Cabeço há representantes de todas as forças políticas, e apoiantes de todos os candidatos. É verdade que uns têm mais peso e maior número que outros. Mas, vença quem vencer, vai haver sempre alguém que não resiste a fazer estrelejar dois morteiros em sinal de regozijo pela vitória. A democracia tem também esta característica de apresentar sempre um vencedor!

– Um vencedor ou vários vencedores. Já tenho reparado que, em certas noites eleitorais, mesmo depois dos votos contados, aparecem várias forças políticas a reclamar vitória. Uns porque ganharam no norte, outros porque tiveram maior votação na região de Lisboa, outros porque tiveram mais dois pontos que na eleição anterior...

– É sempre difícil, seja a quem for, reconhecer que perdeu, Tio Ambrósio! Eu até costumo colocar-me no lugar dos vencidos e pensar como é dolorosa a derrota. E a dor não é tanto o resultado de um homem ter perdido, porque todos sabemos que, verdadeiramente, só pode haver um vencedor. A dor é sobretudo causada por aquilo que os que venceram nos vão dizer no dia seguinte.

– Eu, como nunca me apresentei a eleições, nem sequer me imagino numa situação dessas. E digo-te mais: eu tenho, como é natural, a minha preferência e voto conscientemente num dos candidatos. Mas não fico nada aborrecido se o vencedor for aquele em quem eu não votei, porque estou convencido que esse irá procurar desempenhar da melhor forma que souber o seu lugar. Em democracia há pluralidade de opiniões, pluralidade de posições e pluralidade de soluções.

–Quer dizer que há sempre mais que uma possibilidade de resolverem os problemas...

– E não há, Carlos? Olha o nosso caso concreto do Cabeço. O Manuel Lopes é um óptimo presidente, que tudo tem feito para melhorar as condições de vida dos seus concidadãos. Mas o Lopes não é insubstituível! Tu, por exemplo, davas um excelente presidente da Junta de Freguesia!

– Nem pense, Tio Ambrósio!

– Isto é só um modo de falar para tu entenderes, Carlos! Podia referir, de igual modo, o Sanguessuga, ou o Liberato ou o teu cunhado Acácio. Todos vós estais entre o número daqueles que têm aptidão suficiente para exercer esse cargo.

– Só referiu homens, Tio Ambrósio! Isso, para alguns, é um grave erro político!

– Também concordo, Carlos! E até te digo que estes eleições seriam bem mais interessantes se, entre os candidatos, houvesse uma ou duas senhoras. Possivelmente o debate teria sido bem mais interessante e elevado.

– Lá virá o tempo, Tio Ambrósio!

– Não digas isso a brincar, Carlos! É até bem possível que, nas próximas autárquicas, aqui no Cabeço concorra a tua cunhada Ermelinda. E, no caso do Lopes não concorrer, eu até era capaz de votar nela. É uma mulher decidida e que não tem papas na língua.

– Se esse ponto da participação das mulheres servir para avaliação da qualidade da democracia, a nossa está ainda no fundo da tabela...

– Roma e Pavia não se fizeram num dia, Carlos! E uma das características dos grandes movimentos históricos, devo recordar-te, é a sua lentidão. As coisas, para terem consistência, não podem mudar de um momento para o outro. Mas mudam!

– Por vezes acontece que nós pretendemos que tudo avance mais depressa...

– Eu já cá não estarei para ver, Carlos, porque esta vida tem um limite natural. Mas tu ainda estás muito a tempo de ver uma mulher a desempenhar as mais altas funções do Estado no nosso país.

– E olhe que eu estou em crer que a experiência até podia ser muito positiva. Pois se são elas a governar as nossas casas de família, e quase sempre com bons resultados, porque não hão-de ser elas a governar o país?

– Nem todos pensam deste modo, Carlos!

– O pensar é livre, Tio Ambrósio! Mas também esse vai mudando aos poucos. O nosso povo costuma dizer que só os burros é que não mudam.

– E o povo raramente se engana...

– Mas tem dúvidas, Tio Ambrósio!

– Essa já eu a ouvi em qualquer lado, Carlos! Só espero que não esteja, com ela, a querer insinuar seja o que for.

– É apenas um modo de dizer, Tio Ambrósio! Que a gente tem de dizer alguma coisa, nestas longas horas de espera. Eu fui logo dos primeiros a votar, logo pela manhã. Já viu a eternidade que um homem tem que aguentar até saber se votou bem ou votou mal?

– Se votou, votou bem, Carlos! Eu nunca me arrependi de ter dado o meu voto a este ou àquele. Mas já me arrependi de não ter votado. Porque o voto é a melhor arma que o povo tem ao seu alcance para dizer como pretende que seja o seu futuro. Quem vota está do lado da democracia.

– E pode festejar!

– Tu é que dizes que a democracia é uma festa!

– E não é Tio Ambrósio? Ora pense lá bem!