Ao Calor da Fogueira

– Anda por aí tudo intrigado, Tio Ambrósio!

– Comigo, Carlos?

– Vossemecê, ao que por aí se diz, também pode ter algumas culpas no cartório, pelo apoio que deu ao Sanguessuga naquele inquérito às faculdades físicas e mentais dos octogenários do Cabeço. Dizem alguns, à boca cheia, que se trata de uma forma sonegada de propaganda política...

– E há algum mal nisso, Carlos? O Sanguessuga não é um cidadão de corpo inteiro, no pleno gozo de todos os direitos democráticos? E eu? Não sou um cidadão livre, que posso emitir, sem ofender ninguém, a minha opinião sobre o que vou observando à minha volta? E tu, Carlos? Não te sentes um homem verdadeiramente livre e capaz de dizer aquilo que te parece que está bem ou está mal?

– Estou a ver que já não sou o primeiro a tocar-lhe nesta ferida, Tio Ambrósio!

– Na ferida do Sanguessuga, queres tu dizer! Porque quem organizou o inquérito, quem fez as perguntas e quem ouviu as respostas dos velhotes do Cabeço, foi ele, Manuel das Chagas, mais conhecido por Sanguessuga, portador de bilhete de identidade de cidadão português, com número de contribuinte e com pagamento de impostos em dia. Mas, afinal, Carlos? O que é que intrigou tanto as pessoas? Toda a gente estava à espera daquelas conclusões! Só alguém que não esteja no pleno gozo das suas faculdades mentais é que poderia esperar outro veredicto dum interrogatório daqueles. Tu não sabes que um homem, quando chega aos oitenta, e às vezes ainda antes, vai perdendo reflexos? Que não está, por exemplo (salvo raríssimas excepções) em condições de conduzir uma viatura com segurança?

– O problema não está aí, Tio Ambrósio?

– Então está onde? Em todos nós sabermos que, quando chegamos a esta idade, a memória nos vai atraiçoando todos os dias? Ninguém esperava por
outra conclusão. É um processo natural, este, Carlos! Tu não estás a dizer mal de mim quando afirmas que o Tio Ambrósio já está desmemoriado de muitas coisas, que às vezes já mete os pés pelas mãos...

– Isso não, Tio Ambrósio! Vossemecê para mim está muitos furos acima de toda e qualquer suspeita, mesmo a propósito do envelhecimento. Mas bem vê que alguns levaram esta nossa conversa, e a participação do Sanguessuga no inquérito sobre os octogenários, à conta de um recado mais ou menos declarado a uma certa figura pública que, quando devia estar a descansar, a brincar com os netos, a escrever as memórias e a gozar dos rendimentos, se vem apresentar ao eleitorado, quase como se fosse o salvador da pátria.

– E foi uma figura muito importante para a consolidação da nossa democracia. O homem até cometeu alguns erros, Carlos! Mas quem os não comete ao longo de uma carreira tão longa e cheia de peripécias?

– Quer dizer que o Tio Ambrósio confirma a intenção do Sanguessuga, e que a aprovou de modo mais ou menos declarado?

– Quem diz a verdade não merece castigo, Carlos? E a verdade é mesmo essa, sem tirar nem pôr uma vírgula. Com aquele inquérito aos velhotes do Cabeço e arredores, o cidadão Manuel das Chagas, pretendeu provar, pura e simplesmente, que um homem de oitenta anos deve ter o bom senso de reconhecer que tem muito para dar à família, aos amigos; que tem uma longa e vasta experiência de vida, que deve transmitir aos mais novos. Mas que já não é propriamente, entre os milhões de concidadãos, o mais apto para exercer funções de chefia. Se não é assim, então para que é que todos se querem reformar aos sessenta anos?

– Para desenvolverem outras actividades, Tio Ambrósio! Para terem tempo para ler um bom livro, poderem dar um longo passeio, conviver com os amigos, eu sei lá!

– É isso, exactamente, Carlos! Eu estou inteiramente de acordo que os homens e as mulheres do meu país, quando chegam a uma determinada idade, se retirem do seu trabalho, da sua actividade profissional, com uma pensão honesta, que lhes permita levarem uma vida digna. A idade da reforma não é uma etapa da vida para não fazer nada, mas para fazer coisas diferentes.

– Sendo assim, o Tio Ambrósio aconselha os octogenários a não se meterem em trabalhos para os quais a sua vetusta idade já não é propriamente adequada?

– Quem sou eu para aconselhar, Carlos? Eu apenas verifico como se passam as coisas. Então se um homem pede a reforma quando chega a uma certa idade e sente que as forças lhe começam a faltar, como é que depois vem dizer que ainda está ali para as curvas? Nesse caso era mais consequente se não pedisse a reforma!

– Isso não, Tio Ambrósio! Isso é um direito adquirido e ninguém lhe pode tocar!

É verdade, Carlos! Mas, em democracia, aos direitos, adquiridos ou não, sempre corresponderam os respectivos deveres. Ou já não é assim?