Ao Calor da Fogueira
Então, Tio Ambrósio? Como foi essa longa conversa com o Sanguessuga? Pelos vistos foi animada, que eu bem vi ambos os dois às gargalhadas! Ele contou-lhe aquela do inquérito aos octogenários do Cabeço?
Não foi fácil, Carlos! O Sanguessuga até pensava que eu ficaria mal disposto com as perguntas que ele tinha feito aos velhotes que agora estão na casa dos oitenta anos. Mas em que havia ele de ofender-me? Ter oitenta anos, ou mais, não é nenhum infortúnio. Antes pelo contrário! É uma graça de Deus!
É uma prova de resistência, Tio Ambrósio! Vossemecê não me
vai levar a mal se eu recordar aquela resposta do
venerando Tio Fernando Marques, um santo velhote que nasceu e viveu respirando os puros
ares do Caramulo, a um afilhado dele, o meu amigo Manuel de Valdasna.
Que lhe disse ele, Carlos?
O rapaz, de boa educação, bebida, aliás, com o leite materno,
naquele dia estava a
jogar na irreverência e quis dar uma bicadinha no proverbial e canónico bom humor do Tio
Fenando. "Vossemecê disse-lhe o jovem nem parece que está arrimado
aos oitenta! Está aí mais fresco que muito rapaz solteiro!».
E ele, Carlos?
Achou a fartura em demasia, dando logo pela ferroada. E vaí
daí não esteve com meias medidas. Entre a bonomia e o sarcasmo foi-lhe dizendo que:
"Cá te espero, rapaz! E vaí continuando a dizer dessas a ver se me
incomodam. Olha que eu já vi mar-char muito borrego ao fim de eu ser carneiro!...».
Salvo seja, Carlos! O bom do ancião não deve ter usado essa linguagem, assim tão crua e terreal...
E que linguagem queria o Tio Ambrósio que usassem os bons pastores do Caramulo? Tal como os da Estrela ou do Gerês? O coração de cada um fala segundo a sua própria experiência!
Os latinos diriam "ex abundantia cordis, ou seja "daquilo que lhes vai na alma".
Ainda bem que o Tio Ambrósio traduziu o latinório para português vernáculo! Doutro modo eu ficaria mergulhado na ignorância, tal como ignorante ficarei se vossemecê me não abrir o relatório da sua conversa com o Sanguessuga. Ele sempre fez o inquérito aos velhotes do Cabeço?
Se tu já sabes de tudo, para que estás a querer tirar nabos da púcara, como se fosses um ignorante? Claro que me contou essa do questionário aos varões de mais de oitenta do Cabeço e arredores. Aquele Sanguessuga saiu-me melhor que a encomenda!
Quer dizer que lhe referiu, com pormenor, cada uma das seis perguntas?
Sete, Carlos! Tu deixaste uma no tinteiro! Que as dos Sanguessuga são, por assim dizer, as sete perguntas sacramentais sobre aquela idade onde só alguns chegam e todos queriam chegar.
Das quais a primeira é...
Se tu já sabes, para que queres que eu ta diga?
Quantas horas dorme vossemecê em cada noite?
Estás a ver que sabes, Carlos? Foi essa a primeira pergunta, que nem tem mal nenhum, que o Manuel das Chagas fez ao Tio Avelino da Azenha e aos demais octogenários do Cabeço. Ninguém desconhece que os varões da terceira idade já não têm precisão de dormir mais que cinco ou seis horas por noite. Não é defeito nem é virtude, Carlos! É uma característica que decorre dos parâmetros da própria idade.
E o Tio Ambrósio quantas horas dorme em cada noite?
Metade e mais dois quartos, Carlos! Para onde tu vens de carroça já eu fui de carrinho!
Esta pergunta não ofende, Tio Ambrósio!
Pois não, Carlos! Só que, feita desse modo, parece trazer água no bico.
Essa nem por isso, Tio Ambrósio! Mas a segunda...
Também não aquenta nem arrefenta, Carlos! Que tem o Sanguessuga que saber se os octogenários ainda se lembram hoje do que constava o almoço de ontem? Olha! Eu ontem comi umas favas com entrecosto, que me souberam a manjar dos anjos!
Mas o Tio Ambrósio está fora de conto! Vossemecê sabe bem que mais de noventa por cento dos octogenários do Cabeço e arredores não se lembram da conversa que tiveram no dia anterior e que, por isso mesmo, repetem as mesmas perguntas e dão sucessivamente as mesmas respostas, como se nada se tivesse passado.
E onde queres tu chegar com essa conversa toda, Carlos?
O Sanguessuga não lhe disse? Então espere, que ele, um dia destes, vem para continuar a conversado inquérito. O Sanguessuga, quando se lhe mete uma na cabeça, não há volta a dar-lhe!