À sombra do castanheiro

- Começaram as escaramuças, Tio Ambrósio!

- A que propósito, Carlos?

- De que haveria de ser, Tio Ambrósio? Das autárquicas, claro! Não há como estes períodos que precedem as eleições para a gente ouvir das boas e das bonitas! Quase sempre estas ocasiões são aproveitadas, não para aquilo que devia ser, mas para os pequenos ataques pessoais e, por vezes até, para ajustar contas antigas.

- É o espec~aculo da política à portuguesa, Carlos! Em vez de se aproveitarem as campanhas para um debate alargado sobre os grandes problemas dos concelhos e das freguesias, procurando-se a participação activa do maior número possível de cidadãos eleitores, gasta-se tempo e dinheiro a fazer política baixa, a pregar rasteiras aos outros concorrentes e até a trazer para a praça pública assuntos que para aqui não são chamados. Felizmente que uma coisa dessas não se passa no Cabeço, onde as pessoas são respeitadoras umas das outras, e onde não há atropelos aos direitos alheios.

- Em tempo de eleições não é bem assim, Tio Ambrósio! Pelo ano adiante, cá na terra, quase não notamos que existem diferentes partidos políticos, pois, como costuma dizer o Sanguessuga, a nossa política é o trabalho e a boa convivência com os vizinhos. Mas, logo que se aproxima o tempo de irmos a votos, o caso muda de figura. Até nas biscadas que a gente joga aos domingos à tarde para nos divertirmos o nosso bocado.

- Não me digas, Carlos!

- É verdade, Tio Ambrósio! Durante o ano, lá no café do Sanguessuga, sentam-se à mesma mesa, indistintamente, as diversas tendências políticas da terra e, se calha de se fazerem quatro riscos à sueca, ninguém está a notar se este é vermelho ou laranja, se é rosa ou se é azul às riscas. Somos todos membros de uma mesma família. Mas quando chega a altura das legislativa, e sobretudo esta das autárquicas, aparecem logo divisões. Acontece até que se separam as mesas, com os do partido tal a jogarem o dominó, enquanto os apoiantes de fulano ou de sicrano optam por uma biscada das antigas.

Mas não há zaragata, Carlos?!

De língua, Tio Ambrósio! Não se chega a vias de facto, mas mandam-se umas bocas um tanto fora da ortodoxia.

- Fora da ortodoxia?

- É um modo de dizer, Tio Ambrósio! 0 Pimentel das Favas é que anda sempre com essa na boca. Quando alguém não acerta no cravo e dá uma na ferradura, logo ele se sai com essa boca de se estar fora da ortodoxia. Não me pergunte onde é que ele a foi buscar, porque eu desconheço por completo a origem de tal frase.

- Mas entende-se, Carlos! Cada um de nós julga que o grupo a que pertence é que tem a verdade toda e a razão por inteiro. Os outros são uns desviados, uns ignorantes, uns heterodoxos, isto é, uns defensores e propaladores de doutrinas não verdadeiras. Daí que, quando alguém apresente ideias diferentes ou contrárias às nossas, tenhamos a tentação de dizer que estão fora da ortodoxia. Entende-se e não ofende, Carlos!

- Pois o Pimentel das Favas anda sempre com essa na boca. Ainda um dia destes, lá no estabelecimento do Manuel das Chagas, o nosso presidente Manuel Lopes, que vai continuar como candidato independente, que o mesmo é dizer como candidato do nosso movimento dos homens sem medo de olhos abertos e ouvidos fechados...

- Onde isso vai, Carlos!

- Olhe que não, Tio Ambrósio! Nós somos membros se um verdadeiro movimento comunitário que pretende para a nossa terra um progresso que não agrida as nossas ideias e não hipoteque o futuro dos nossos filhos. Mas eu ia a dizer-lhe que, um dia destes, o Lopes, já em pré-campanha eleitoral, defendeu que as juntas de freguesia deviam ser dotadas com umas massas valentes, pois era sua intenção não apenas arranjar estradas e caminhos ou limpar as fontes, mas apoiar alguns movimentos culturais da freguesia. Ao lado, o Pimentel das Favas saiu-se com a dele: "ó amigo Lopes! E esse apoio não passa ao lado da ortodoxia?"

- E os outros?

- Todos se riram, Tio Ambrósio! Como bons cristãos, aproveitam estes momentos para demonstrarem a sua alegria. Não é vossemecê que me repete continuamente que nós, os cristãos, devemos ser alegres?

- Até porque tristezas não pagam dívidas, Carlos!


Copyright O AMIGO DO POVO - amigodopovo@sapo.pt

Produção:
amigopovo1.jpg (17264 bytes) seta.gif (554 bytes)