Dá-me licença, Tio Ambrósio?
Entra,
Carlos! Enxuga-me essas botas aqui ao calor da minha fogueira, e vai-me contando as
últimas novidades do Cabeço. Como correm as coisas por aí? E aquela reunião de
reflexão sobre o nosso futuro próximo?
Sempre
pensei que o Tio Ambrósio aparecesse por lá! Vossemecê bem sabe que todos apreciamos a
sua opinião...
Com aquela
noite de chuva, tive medo de sair de casa, Carlos! Tu sabes bem que não é conveniente um
velho apanhar uma molha, que pode trazer consigo um resfriado, e este uma pneumonia, e está umas semanas a caldos de galinha. Ou seja:
um homem, nesta idade tem que ter cuidados redobrados.
Sempre se
ouviu dizer que o seguro morreu de velho. Mas o certo é que, hoje em dia, com os meios
que temos ao nosso alcance, já é possível evitar muitos desses riscos. Bastava o Tio
Ambrósio abrir a boca e logo eu, ou o Sanguessuga, ou o meu cunhado Acácio...
qualquer de nós passava por aqui para o levar de automóvel. O meu não é
assim dos mais apresentáveis. mas o do Sanguessuga é uma bela máquina, com poucos meses
de uso, pois quem o tem é que deve mostrá-lo!
Cuidado,
Carlos! Os sinais exteriores de riqueza podem vir a ser tributados, o que não deixa de
ser justo, porquanto se é verdade que quem o tem é que pode mostrá-lo, também é
verdade que quem o mostra é que deve pagá-lo.
Infelizmente não tem sido assim, Tio Ambrósio! Mas há já por aí alguns sinais de
mudança, e eu estou convencido que alguma coisa se vai conseguir nos próximos tempos.
Posso até dizer-
-lhe que tenho alterado a minha opinião sobre o governo do nosso primeiro filósofo,
sobretudo em relação à tentativa de moralização de alguns sectores onde imperavam, e
continuam a imperar certas mercadorias que o nosso povo não pode ver com bons olhos.
Estás a
falar dos nossos meretíssimos juizes!
Com todo o
respeito, Tio Ambrósio! Deles e de tantos outros que se sentam à mesa do orçamento,
que reivindicam benesses, que querem reformas antecipadas, que pretendem serviços
especiais de saúde e de segurança social, que exigem subsídios de representação, e
por aí fora! Como diz a minha cunhada Ermelinda, agora é que a gente está a ver até
onde é que chegava a desigualdade.
Todas as
constituições modernas, e a nossa não é excepção, afirmam a pés juntos que todos os
cidadãos são iguais em direitos.
Só que uns
são mais iguais que os outros, Tio Ambrósio! E, depois, se alguém lhes toca na
igualdade é o bom e o bonito! Habituam-se a ser mais iguais que os pobres, a poderem ter
férias mais iguais nos grandes destinos turísticos, a deslocarem-se em automóveis mais
iguais, a terem casas mais iguais com piscinas mais iguais e salas de sauna mais iguais
também...
Dá para
desconfiar de tanta igualdade, Carlos!
De tanta
desigualdade, Tio Ambrósio! Vossemecê já reparou que um cidadão normal, assim como
eu ou como o Tio Ambrósio, se lhe surge uma doença tem que ir para a bicha no centro de
saúde, para a lista de espera nos hospitais, tem que pagar taxas moderadas e a
comparticipação nos medicamentos?
Pois claro,
Carlos? Se somos todos iguais!
Só que
esses tais que são mais iguais que os outros não vão para as bichas, não precisam de
se inscrever nas listas de espera, não desenbolsam um tostão em taxas moderadoras e
usufruem de sistemas de segurança social que lhes pagam a comparticipação nos
medicamentos e lhes concedem outras regalias que o comum dos mortais por vezes nem se
atreve a imaginar.
As coisas
que tu sabes, Carlos!
O que eu
tenho aprendido nestes últimos tempos, Tio Ambrósio! Vossemecê, por exemplo, sabe
que há aposentados da função pública com reformas superiores ao ordenado do senhor
Presidente da República?
Uma coisa
dessas não é possível!
Não era
possível num país em que uns cidadãos não fossem mais iguais que os outros. Mas neste
jardim à beira--mar plantado é o pão de cada dia.
Estou a ver
que a vossa reunião de reflexão sobre os tempos que aí vêm, além de proveitosa, vos
tornou mais atentos e interventivos. Daqui em diante não vai ser qualquer um a comer-vos
as papas na cabeça.
Sei lá,
Tio Ambrósio! isto, por vezes são remoinhos de vento que passam, que agitam a
vegetação, mas logo seguidos de uma longa acalmia que faz voltar tudo à primeira forma.
Mas o Tio Ambrósio havia de ter asistido e participado na reunião. Opiniões não
faltaram. Agora é que eu fiquei mesmo convencido que o Liberato tinha toda a razão
quando afirmava que com esta desigualdade de pensamento não podemos ir longe. Isto agora
é mesmo cada cabeça sua sentença! E até houve sentenças com piada, Tio Ambrósio!
Quer ouvir uma?
Talvez para a
próxima, Carlos! Agora vamos às castanhas, que é tempo delas!