À sombra do castanheiro
A vida tem-te corrido bem, Carlos! Trazes aí o um sorriso de orelha a orelha! A que se deve tanto contentamento?
Tristezas não pagam dívidas, Tio Ambrósio! Como vossemecê sabe, as dificuldades são muitas e variadas, com os impostos a aumentar, os combustíveis a ultrapassar limites que julgávamos impossíveis, o desemprego a crescer todos os dias...
As lamúrias do costume!
Antes fossem apenas lamúrias, Tio Ambrósio! Começa mesmo a haver por aí muito boa gente que não sabe que voltas há-de dar à vida para não se afundar de vez. Isto não está para brincadeiras! Também é um facto que, nestes últimos anos, muitos se habituaram a um estilo de vida que julgavam que durava para sempre. E por isso, compraram casa, compraram carro que não ficasse atrás do do vizinho, contrairam empréstimos para passar férias no estrangeiro...
Tudo coisas agradáveis, Carlos! Ninguém pode levar a mal que as pessoas sonhem e consigam uma forma de vida mais desafogada e com melhor qualidade.
O problema é o reverso da medalha, Tio Ambrósio! Eu cá ainda sou daqueles que não costumam dar um passo sem ter a certeza que o pé da frente está em terreno seguro. É que ele, o seguro, como diz o nosso povo, morreu de velho. Mas acontece que nem todos pensam como eu, que até tenho o costume de aferrolhar uns tostões para o que der e vier. A gente nunca sabe o que nos reserva o dia de amanhã...
A isso dou eu o nome de prudência, Carlos!
Que é o que falta a muita gente! Mas, enfim, passemos adiante, porque também
não podemos esquecer que hoje as dificuldades que enfrentamos são muito concretas e
palpáveis. Por exemplo, a questão do desemprego não pode ser lidudida nem esquecida.
Nós temos muitas dezenas de milhar de
jovens, muitos deles com cursos universitários, que não arranjam nenhuma colocação,
onde possam desenvolver as suas capacidades.
O desemprego é duplamente prejudicial para o país. Nisso tens toda a razão!
Mais que duplamente, Tio Ambrósio! Primeiro perdem os próprios jovens a quem
nós dizemos para estudarem, para serem aplicados. Chegam ao fim e o que os espera é a
desilusão! Afinal andaram a enganá-los uma
série de anos a fio! Depois perdem
as famílias que têm que dividir o seu orçamento com rapazes e raparigas que, em
circunstâncias normais, podiam e deviam sobreviver por si próprios. O país também nada
lucra, muito pelo contrário, pois a riqueza de um povo
é a força de trabalho dos cidadãos, a começar pelos mais jovens.
Neste ponto estamos plenamente de acordo, Carlos! O futuro do país estará seriamente comprometido se continuarmos a ter milhares e milhares de jovens que não dão o seu contributo para o desenvolvimento económico, social e cultural.
Mas não pense que é apenas nesse ponto que não encontramos motivos para sorrir, antes pelo contrário. Quer que lhe diga outro?
Sou todo ouvidos, Carlos!
O envelhecimento geral da população! Aí tem vossemecê um problema muito grave e para o qual se não vislumbra qualquer remédio. O Tio Ambrósio esteve atento aos números relativos às eleições que decorreram no passado domingo...
Estive, e até pensava que esse seria hoje o tema central da nossa conversa...
Pois então veja que leitura faz destes dados: nós, os portugueses residentes
no país, somos cerca de dez
milhões. Desses estavam recenseados, e por isso em condições de votar, um pouco mais de
oito milhões e setecentos mil. Ou seja: só não estavam recenseados um milhão e
trezentos mil, que é o número que corresponde às crianças e aos jovens com menos de
dezoito anos.
E onde é que tu queres chegar com toda essa matemática?
É simples, Tio Ambrósio! As crianças e os jovens, em comparação com os adultos e idosos, são uma percentagem muito reduzida. O Tio Ambrósio sabe que há em Portugal mais homens e mulheres na idade de reforma do que na idade escolar?
Ainda não tinha pensado nisso, Carlos? Mas, a ser verdade, é ralmente preocupante.
E vamos preocupar-nos, Tio Ambrósio? Acha? Eu não lhe disse que preocupações e tristezas não pagam dívidas?
Quer dizer que está aí a explicação para esse sorriso que trazes estampado no rosto...
Eu estou preocupado, mas não angustiado, Tio Ambrósio! Além disso, também não é tudo uma desgraça, pois encontramos na vida motivos que nos levam a viver com alguma satisfação. Por exemplo o da vitória eleitoral do nosso amigo e companheiro de jornada Manuel Lopes, que deixou a milhas toda a concorrência.
Agora ainda entendo melhor o sorriso...
Pois é, Tio Ambrósio! Aquela vitória retumbante merece uma celebração festiva. Vamos todos juntar-nos no páteo do Lopes, onde não falta música e comida, tudo à conta do eleito. Nessas coisas do desemprego e do envelhecimento da população havemos de pensar depois. Não quer o Tio Ambrósio vir daí connosco?
Não, Carlos! Obrigado pelo convite, mas fico-me por aqui. Afinal o que o povo quer é mesmo festa!