À sombra do castanheiro
– Isto é que foi madrugar, Tio Ambrósio! Ainda pouco passa das nove e já está de regresso a casa...
– É como vês, Carlos! Eu continuo a seguir aquele velho princípio popular que diz que um homem não deve guardar para amanhã o que pode fazer hoje. Por isso, levantei-me ainda antes do sol, preparei-me, e vim à missa das oito. No final passei aqui pela casa da Junta para cumprir o dever que me assiste de votar nos candidatos que me parece que devem estar à frente do concelho e da freguesia. E tu, carlos? Também já
estás de volta?
– Ainda não! Combinei um encontro com o meu cunhado Acácio e com o Sanguessuga para, aí por volta das dez horas, acompanharmos o Lopes no acto de votar...
– Já vi que queres ficar na fotografia...
– Para mais tarde recordar, Tio Ambrósio! Não há mal nenhum nisso, pois não ?
– Depende, Carlos! Eu não sei propriamente qual é a tua intenção. Se é a de dares apoio moral ao Lopes, companheiro de trabalho e de lutas em defesa das liberdades do nosso povo, então acho muito bem. Nós não devemos ter medo de mostrar de que lado estamos, sobretudo quando se trata de assuntos que interessam a toda a comunidade. Por vezes tenho encontrado alguns amigos nossos, gente boa e honrada, que mostra um grande desinteresse por estas coisas. Ainda ontem estive com o Juvenal e vi-me à brocha para o convencer a participar com o seu voto para a escolha dos anteriores. Veio-me com aquela cantiga costumada de que são
todos iguais, de que o que todos eles querem é poleiro...
– E o Tio Ambrósio até sabe que isso é inteiramente verdade...
– Nesse caso tanto importa votar em Pedro como em Paulo. Não é, Carlos?
– Não, Tio Ambrósio! O facto de
todos eles pretenderem um lugar de destaque social não invalida a razão
da sua maior ou menor competência. Todos querem o poleiro, mas digamos que há uns que o merecem mais do que outros, em virtude da competência que apresentem para desempenhar honestamente o lugar a que se candidatam.
– E tu achas que o povo olha a esses pormenores?
– Então não, Tio Ambrósio? Sobretudo nestas eleições locais, em que o conhecimento dos candidatos é pessoal e directo, eu não tenho dúvidas que o povo escolhe os que se apresentam com melhores trunfos para ganharem a partida. Pode haver um caso ou outro
em que o povo se deixe ir no conto do vigário, mas em mais de noventa por cento dos casos a escolher recai nos que dão garantias de trabalho, competência e honestidade.
– Aqui, no nosso caso do Cabeço, penso que tal vai acontecer. Mas posso dizer-te que tenho algumas dúvidas em relação a vários pontos do país, sobretudo aqueles em que entraram algumas jogadas de bastidores com a cobertura de uma comunicação social mais interessada nos escândalos que vendem jornais e fazem crescer audiências do que no verdadeiro progresso do país.
– O Tio Ambrósio vai ver que, na hora da verdade, o povo não se deixa iludir com palavras mansas e vai acertar em cheio...
– A ver vamos, Carlos! Logo à tarde, quando as televisões começarem a debitar as suas projecções e os primeiros resultados é que eu me vou certificar se o nosso povo ainda é o que era dantes, ou se se vai deixando ir na onda de confundir tolerância com demagogia popular, de confundir candidatos competentes com candidatos que o que procuram é um protagonismo individual.
– Esse é um dos pontos de interesse destas eleições, Tio Ambrósio! O Sanguessuga ainda um dia destes me dizia que estava para ver como é que, em alguns casos, o povo ia escolher entre o certo e o duvidoso...
– Hoje não é o dia melhor para discutirmos essas coisas, até porque as paredes têm ouvidos e nós sabemos que não nos é permitido influenciar o voto de ninguém. Mas depois, quando fores lá a minha casa para me dares o gosto de comer as primeiras castanhas, nessa altura, e com outros dados conhecidos, podemos fazer uma análise mais crítica a este propósito. Porque eu tenho realmente receio de que a justiça do voto não funcione, colocando em xeque a própria democracia.
– O Tio Ambrósio, ultimamente, tem andado nessa de insistir que a nossa democracia corre alguns riscos de sobrevivência...
– Há por aí sinais de algum alarme. Mas eu espero sinceramente que o povo, cada vez mais, dê provas de que sabe fazer a escolha certa.