À sombra do castanheiro

– Olhe que a nossa classe dirigente ficou aborrecida com os comentários que o povo e alguns jornalistas fizeram a propósito da forma como se comportaram durante a época dos incêndios...

– Não me digas, Carlos! Então suas excelências ficaram de bico por causa do povo dizer a verdade? É coisa para admirar, Carlos! Os nossos políticos costumam ser pessoas tão humildes, tão próximas das populações, que a mim me parece coisa estranha haver um só deles sequer que se tenha queixado da falta de subsistência do povo.

– Não seja tão contundente, Tio Ambrósio!

– Que eu saiba ainda ninguém nos quitou o direito de manifestarmos a nossa opinião, mesmo que, para não sermos grosseiros, tenhamos que pôr nas palavras uma pontinha de ironia.

– Quer dizer o Tio Ambrósio, falando por meio de parábolas, que a sua vontade, ou seja a vontade do povo, não era apenas mandar-lhes inofensivas ferroadas, mas zurzir-lhes mesmo o cabedal?

– Violência, não, Carlos! Um homem pode indignar-se com o comportamento ignóbil deste ou daquele cidadão, mas sem nunca chegar a vias de facto. Uma coisa é a tesoura e outra é o chicote!

– Na impossibilidade cristã de recorrermos ao segundo, contentemo-nos em usar a primeira para desabafarmos toda a amargura que nos vais na alma. Então o Tio Ambrósio havia de ouvir o meu cunhado Acácio, ou o Sanguessuga ou o compadre Quintino! Alguns deles ficaram sem uma árvore de pé, sem o mais pequeno ramo de verdura...

– E tu não achas que eles podem e devem queixar-se?

– E queixam, Tio Ambrósio! É certo que isso pouco vale, porque a eles (àqueles que deviam escutar) entra-lhes por um ouvido e sai-lhes pelo outro. Vai ver como eles voltam a vir aí às nossas praças a fazerem-nos outras promessas e a pedirem o nosso voto. Isso de incêndios é coisa do passado, dizem eles! Agora é que vai ser a sério, agora é que vamos criar melhores condições de vida. Então não há um deles que vem prometer criar no seu concelho cinco mil novos empregos? Outro não promete a vinda de mais três médicos para que no seu concelho do interior ninguém fique sem cuidados de saúde?

– Prometem este mundo e o outro, escudados no princípio de que a memória dos cidadãos é curta na inversa medida que a sua língua é comprida.

– Pois eles que venham, que vão ter pela frente perguntas difíceis de responder. Se aparecer por aí algum ministro armado em figurão de retórica fácil, vai ter que explicar ao Sanguessuga, que ficou sem uma tapada de pinhal quase de corte, porque é que os helicópteros da nossa força aérea não podem sair para apagar os incêndios, adaptando-lhes um balde de dois mil litros, e se pediu a ajuda da polícia alemã, que trouxe helicópteros iguaizinhos aos nossos. Então como é? Os dos alemãs servem para apagar incêndios e os nossos só prestam para transportar ministros de um lado para o outro, para sobrevoarem as áreas que estão a arder?

– Essa é a indignação do povo, Carlos!

– E alguém se pode queixar pelo facto de reagirmos assim? Então nós vimos as nossas casas em risco de serem devoradas pelo fogo e depois vamos aceitar que um ministro nos chegue à nossa terra, deslocando-se num helicóptero pago por nós, para ver o espectáculo dantesco, mas grandioso, das nossas matas a arder?

– Parece que o nosso primeiro só chegou mesmo quando já estava tudo em cinzas.

– Não podia, nem era necessário interromper as férias! Olhe que admiração, Tio Ambrósio! Não era a casa dele que estava em risco de arder! Numa circunstância destas, toda a gente correu para junto das suas coisas, daquilo que lhe custou a adquirir com muito esforço e muito suor. Muita gente que estava na praia, regressou à pressa para tentar salvar o que era seu.

– Pelos vistos nem todos reagimos da mesma maneira, Carlos! E depois há alguns que não sentem mesmo esta terra como sua, estas matas como suas...

– Mas nas campanhas eleitorais dizem que sim! Protestam e juram amor sem limites a esta terra e ao seu povo...

– Tretas, Carlos! Mas isso a mim já me não admira sobremaneira. Já cá ando há tantos anos, já vi tanta coisa, que nada me espanta que, com raras excepções, o povo continue a acreditar em gente palavrosa, mesmo que os seus actos sejam o que está à vista.