À sombra do castanheiro

– O Tio Ambrósio é um homem com muita sorte!

– Ainda não me ouviste queixar-me, Carlos! Mas tenho a certeza de que vais dizer-me as razões da tua afirmação.

– Então vossemecê não é um dos poucos habitantes do Cabeço que continua a poder gozar, mesmo aqui ao pé da sua porta, da sombra do castanheiro? Há por aí quem não tenha ficado com uma única árvore de pé. Tudo o fogo levou!

– É uma tristeza, Carlos! Podes crer que, olhando para esta paisagem agora marcada pelo negrume da terra queimada, até já me vieram as lágrimas aos olhos. Quase nada escapou, aqui à volta do Cabeço, da verdura que fazia da nossa terra um verdadeiro jardim. Em poucas horas, tudo o que era verdejante ficou reduzido a um extenso manto de cinzas.

– Não há palavras, Tio Ambrósio! Eu, pelo menos, ainda não consegui encontrar nenhuma razão de ser para tamanha catástrofe. Será a maldade do ser humano? Serão interesses particulares? Serão vinganças mesquinhas? Ou será, pura e simplesmente, uma fatalidade a que, ciclicamente, estamos sujeitos? O Tio Ambrósio é capaz de me dizer?

– Antes fosse, Carlos! Mas também eu não atino com as razões que possam estar na origem deste verdadeiro desastre nacional. E, se queres que te diga, não me parece que as nossas cabeças pensadoras estejam muito interessadas em descobrir seja o que for a este propósito. Fala-se muito de riqueza nacional, de aproveitamento dos poucos recursos que possuímos, mas o certo é que todos ficam de braços cruzados perante esta destruição daquilo a que alguns, ainda não há muito tempo, davam o nome de "o nosso petróleo verde". Eu sei que as nossas matas, quase todas nas mãos de pequenos proprietários, pouco contam para o produto interno bruto e não me parece que entrem em nenhuma alínea do orçamento geral do Estado. O mesmo é dizer que, no meio de tudo isto, quem se trama é o mexilhão. Tu e os outros pequenos proprietários é que ficais de mãos a abanar...

– E vossemecê também ficou reduzido ao seu quintal e a este castanheiro histórico.

– Pouco mais, Carlos! Mas dou-me por feliz pelo facto de este castanheiro ter escapado incólume. Tu já imaginaste o Cabeço sem este castanheiro e os milhares de conversas e episódios de que ele foi testemunha silenciosa?

– É verdade, Tio Ambrósio! Quem não tem amor a estas árvores não pode calcular a mágoa que nós sentimos em perdê-las. O Sanguessuga, por exemplo, anda amargurado com a perda de um olival, que ele tratava como um jardim, e que agora não passa de um cemitério de árvores ressequidas, como dedos mirrados levantados ao céu a pedir justiça. Eu próprio ainda não tive coragem de ir ver algumas das desgraças que me aconteceram. Figueiras, nem uma, Tio Ambrósio! E se eu tinha duas figueiras frondosas, que davam figos do mais doce que se possa imaginar. Pois, este ano, nem os vou provar!

– Ai isso é que vais! A mim escapou-me essa pingo-de-mel, aí no quintal, que os tem bem bonitos e saborosos. Chegam para mim e para ti, até porque o doutor Francisco Carrilho, que é quem agora me vai tratando de algumas maleitas da velhice, me pôs de cautela contra essas doçuras excessivas. Um ou dois por semana, até ao S. Miguel, para matar o vício. E nem mais um!

– Eu mudava de médico, Tio Ambrósio!

– Quando chegares à minha idade vais ver que falas de modo diferente. Mas ainda bem que és jovem e tens muitos anos pela frente. Tu, ao menos, ainda vais ter tempo para ver de novo os montes aqui à volta do Cabeço cobertos de cerejeiras, de castanheiros e de outras muitas árvores que floresçam na Primavera para nos dizerem que não há fogo capaz de destruir o dom da vida que se renova, apesar dos muitos atentados contra ela.

– Isso é que é falar, Tio Ambrósio! Olhe que vossemecê fazia uma obra meritória se, um dia destes, aparecesse no estabelecimento do Sanguessuga, para o animar a ele, e a muitos outros que ali se reúnem habitualmente, e que andam amargurados com a perda dos pinhais e outros bens reduzidos a cinzas. Alguns, como o meu cunhado Acácio, ainda mal conseguem conciliar o sono.

– Essa é uma mazela que o tempo cura, Carlos!

– Mas dói, Tio Ambrósio.

A quem o dizes! Mas fica sabendo que não há nenhum lamento capaz de dar vida a tudo o que ardeu. Deixemo-nos, pois, de lamentações e ponhamos mãos ao trabalho. Eu garanto que, se Deus me der vida e saúde, lá para Fevereiro ou Março vou plantar duas cerejeiras para substituir as que agora se foram. Não conheço outra solução para esta tristeza, Carlos! E tu, conheces?