À sombra do castanheiro
- Há coisas que, por mais que dê volta ao miolo, continuo a não entender. Ou elas estão mal esclarecidas ou eu sou de inteligência curta. Se calhar, a mais provável é a segunda hipótese. Não acha, Tio Ambrósio?
- Não costumo opinar sobre assuntos que desconheço, Carlos! Se me disseres quais são essas coisas que te parecem desordenadas, então poderei emitir o meu parecer sobre a relação entre elas e a dimensão da tua inteligência. De que se trata, Carlos?
- Da falta de planeamento por parte daqueles a quem demos o mandato para, como diz o nosso intelectual Liberato, fazerem a governação da coisa pública.
- Estás a referir-te à grande paixão pela educação?
- Acertou em cheio, Tio Ambrósio! Habilite-se à lotaria ou à raspadinha, que está em semana de palpites certeiros.
- Para mim a grande lotaria é a saúde que Deus me vai concedendo, Carlos! Mas deixemos isso e vejamos qual é o motivo das tuas agruras ou, pelo menos, dos teus azedumes.
- Estão à vista, Tio Ambrósio! Nós, por vezes, metidos no nosso casulo, é que não queremos ver o que se passa à nossa volta.
- E, como diz o nosso povo, o pior cego é aquele que não quer ver.
- A mim, o que me alertou para esta situação pouco abonatória da capacidade organizativa dos nossos governantes foi o quase desespero do Frederico, um dos filhos do nosso amigo Quintino, que, pela unha negra de duas décimas, não conseguiu concretizar o sonho de entrar na Faculdade de Medicina. Embora filho de gente modesta, o Frederico sempre deu sinais de ter vindo ao mundo com capacidades acima da média.
- As capacidades de inteligência, de memória e de reflexão não são apanágio exclusivo dos filhos das famílias abastadas, Carlos! Tu, por exemplo, se tens tido oportunidade de desenvolver as tuas qualidades, poderias ser hoje um excelente engenheiro agrícola, ou um conhecido veterinário, ou mesmo um professor catedrático da nossa Universidade.
- Quem sabe, Tio Ambrósio? Mas não é esse agora o caso. O certo é que o filho do Quintino, além da inteligência que Deus lhe deu, é um rapaz aplicado e com comprovadas qualidades de trabalho. Na escola foi sempre dos da dianteira, e o seu nome apareceu regularmente na lista dos alunos distintos. E tudo isto com um objectivo: o de poder vir a ingressar no curso que lhe permitisse realizar o sonho de nos curar as catarreiras e nos aliviar as dores de barriga.
- E tudo isso foi por água abaixo por causa de duas míseras décimas de valor na pauta das classificações de ingresso na universidade.
- Parece mentira, mas é verdade, Tio Ambrósio! E, como o Frederico, foram muitos os jovens que viram desvanecidas as suas legítimas aspirações. Muitos deles vão ficar em casa um ano inteiro, procurando subir as notas em alguma cadeira, de modo a poderem entrar numa próxima oportunidade. Outros, porém, vão engrossar a fileira dos alunos de cursos universitários com uma única saída: o desemprego. E isto é que eu não entendo, Tio Ambrósio!
- E que é que entende, Carlos?
- Só os iluminados dos nossos governantes, Tio Ambrósio! Enquanto os nossos centros de saúde não funcionam por falta de médicos e de enfermeiros, e os hospitais, de norte a sul do país, recorrem a profissionais vindos de Espanha ou de outros países, mandam-se os jovens portugueses tirar cursos de letras para amanhã fazerem crescer o número dos desempregados portadores de canudos universitários.
- Eu ainda não há muitos dias que li num jornal, provavelmente no "Amigo do Povo" ou no "Correio de Coimbra", uma notícia sobre os jovens professores sem colocação nas escolas. Se a memória me não falha são cerca de trinta mil os licenciados sem emprego.
- Apesar disso continuam a multiplicar-se, nas universidades públicas e privadas, os cursos sem qualquer saída profissional. Não acha estranha esta situação?
- Eu não sou especialista na matéria, Carlos! Mas, mesmo sem pretender meter foice em seara alheia, pareceme que a planificação dos estudos médios e superiores em Portugal deixa bastante a desejar. Será que alguém sabe, lá pelos corredores dos ministérios, de quantos enfermeiros vai necessitar o país daqui a dez anos?
- Estou em crer que não, Tio Ambrósio! Na altura se verá! E, se não houver que cheguem, mandam-se vir do estrangeiro, enquanto os nossos rapazes e raparigas tiram cursos que não têm utilidade nenhuma. A isto chama o Sanguessuga "planeamento à portuguesa".
- Bem visto, Carlos!
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