À SOMBRA DO CASTANHEIRO
– Agora vamos ter alguns dias de descanso, Tio Ambrósio! Com a nossa classe política a banhos no sul de Espanha, nas Caraíbas, em Cabo Verde ou no Algarve, os noticiários vão deixar de nos matraquear com as afirmações dos candidatos a candidatos...
– Isso era o que tu querias, Carlos! Mas este ano, por mal dos nossos pecados, nem no mês de Agosto nos vão deixar descansados. As autárquicas estão marcadas para Outubro, não é?
– Creio que sim, Tio Ambrósio!
– Pois então vais ver se há romaria de Agosto onde não apareçam os interessados a pegar no pálio, a entregar uma esmola que dê nas vistas, e a botar faladura no arraial. Por mais que se lhes diga que isso é demagogia, não são capazes de resistir à tentação.
– O que a mim me admira é todos dizerem que as finanças do país vão pelas ruas da amargura, e mesmo assim haver tantos que ainda continuam a pretender fazer o patriótico sacrifício de servirem os interesses do povo.
– É isso, Carlos! Temos um país cheio de cidadãos sacrificados e altruístas. Nenhum deles se candidata por interesse próprio, mas assumindo o desígnio de servir sacrificadamente os seus concidadãos, sobretudo os mais pobres e carenciados.
– Paleio, Tio Ambrósio! Mas enfim! Temos que nos ir aturando uns aos outros!
– Nem todos vão nessa conversa, Carlos! Olha o que se passou com o senhor ministro das finanças.
– Bateu com a porta, Tio Ambrósio! E cá no meu entender, fez muito bem, para não estar a dar cobertura a empreendimentos com que não concorda e que não serão os que mais falta fazem para o real desenvolvimento do país.
– Terá sido por isso, Carlos?
– Isto é um supor, Tio Ambrósio! O homem alegou cansaço e razões do foro familiar, o que me parece muito pouco para bater com a porta daquela maneira na cara do nosso primeiro.
– O caso não foi comentado aí no Cabeço? O que pensa disto o Liberato? E o Manuel das Chagas? E o teu cunhado Acácio?
– Ainda não veio a talho de foice uma conversa do género. Mas quem tem opinião formada sobre o assunto é a Ermelinda. Como sabe, a minha cunhada, quando tem a dizê-las, não as perdoa a ninguém. E um dia destes ouvi-a comentar essa saída do ministro das finanças com a minha Joana. Para ela, aquilo foi um acto de esperteza. Nem outra coisa seria de esperar de um professor de economia, que passou anos e anos a fazer contas à situação do país.
– E daí, Carlos?
– Daí se seguiu, segundo a opinião da Ermelinda, que o homem chegou à conclusão que isto não tem ponta por onde se lhe pegue. E vai daí, aproveitou a primeira oportunidade para se pirar, até porque aquilo, além de tudo o mais, lhe estava a dar um prejuízo às finanças pessoais de mais de dez mil euros por mês. Não são propriamente uns trocos, Tio Ambrósio!
– Quer a Ermelinda dizer que este senhor ministro se limitou a seguir o exemplo daqueles dois senhores primeiros-ministros que, quando viram que não eram capazes de dar conta do recado, na primeira oportunidade deram às de vila-diogo.
– E veja se não se safaram na vida, Tio Ambrósio! Um mandou-nos à fava e foi exibir-se para a Europa. O outro fez outro tanto, mas conseguiu um lugar nas Nações Unidas, onde pode dar largas ao seu desejo não de servir o seu povo, como prometeu, mas de agora servir a inteira humanidade. Está o Tio Ambrósio a ver como nós temos concidadãos cujo desejo de servir não cabe já nos acanhados limites da pátria?
– Que queres, Carlos? Nós sempre fomos melhores a descobrir o mundo do que a granjear o pão aqui ao pé da nossa porta. Por isso, não te admires que, com tão ilustres exemplos a precedê-lo, o nosso primeiro filósofo, se, por exemplo perder as autárquicas ou as presidenciais, aproveite a ocasião para nos dizer adeus até outro dia.
– Então não está a minha cunhada Ermelinda muito longe da razão.
– Isto é só um supor, Carlos!
– Evidentemente, Tio Ambrósio! Porque, como diz o nosso povo, o futuro a Deus pertence!
– Grande sábio é o nosso povo, Carlos!
– Já lhe tenho ouvido chamar outras coisas! Mas adiante, que se faz tarde!
– Até um dia destes! E que o Senhor te acompanhe!
– Igualmente, Tio Ambrósio!