À sombra do castanheiro

– Olá Carlos!

– Viva, Tio Ambrósio! Cá está vossemecê nas suas leituras...

– Cada um é para o que lhe puxa! Alguns velhotes da minha idade aproveitam os domingos à tarde para jogarem uma biscada, para medirem a pontaria a atirar ao fito, ou mesmo para verem um qualquer programa na televisão. A mim puxa-me para ler. E olha que estou convencido que, apesar das maravilhas que dizem de todos esses novos meios de comunicação, incluindo a Internet, ainda não há nenhum que substitua devidamente um bom livro ou uma boa revista.

– Mas hoje está aí todo embrenhado na leitura das páginas de um jornal. Temos novidade?

– Infelizmente as novidades que temos não são as mais animadoras. Tu já reparaste na vaga de atentados que se desencadeou um pouco por todo o lado. É caso para dizer que um homem já se não pode sentir seguro seja onde for.

– Aqui ainda temos noventa e nove por cento de probabilidades de falar sem sermos incomodados, Tio Ambrósio! Quem é que se ia lembrar de cometer um atentado numa pequena aldeia como a nossa, onde toda a gente é temente a Deus e procura levar uma vida pacata e sem escândalo para o mundo?

– É o que por aí falta, Carlos! O melhor é estarmos bem calados, porque gente inclinada a fazer mal existe em todo o lado. E não é só com bombas que se fazem estragos! Basta repararmos no que por aí vai, com esta vaga de incêndios que aterroriza populações, que destrói matas e habitações, deixando por todo o lado um espectáculo de negrume e destruição.

– É uma tristeza, Tio Ambrósio! E o que mais me admira é que olhamos todos para isto como se fosse uma fatalidade, sem vermos ninguém a bulir uma palha para mudar o rumo dos acontecimentos. Mas olhe que os fogos, na sua absoluta maioria, não se ateiam sozinhos. Vá lá que haja por ano uma dúzia, um quarteirão, ou mesmo um cento de incêndios provocados por causas naturais e por descuido humano. Mas o que a gente vê é uma barbaridade! Aqui há causas que não podemos atribuir ao acaso ou a qualquer fenómeno da natureza.

– Isso é evidente, Carlos! Eu sou do tempo em que aqui nos sete concelhos em redor não havia um incêndio por década. É verdade que, nessa altura, as matas estavam bastante mais limpas, por via do consumo das lenhas nas lareiras e dos estrumes nos campos. Havia mesmo alguns rebanhos de gado que limpavam as matas de modo natural. Mas, cá na minha opinião, isso não é explicação suficiente para aquilo a que vamos assistindo todos os anos.

– Todos sabemos isso, Tio Ambrósio! Mas o certo é que todos falam, falam e os pinhais continuam a arder! Vêm os políticos, emitem a sua repimpada opinião, e os pinhais continuam a arder! Vêm os autarcas, dizem de sua justiça, e os pinhais continuam num braseiro. Vêm os analistas e comentaristas, mandam umas bocas bem pagas, e os pinhais continuam a ser devorados pelas chamas. Vêm os bombeiros clamar pela falta de meios, e os incêndios alastram cada vez mais. Vem o senhor Presidente da República dar palavras de apoio aos que combatem o flagelo, mas o número de hectares ardidos não pára de subir. De modos que todos nós estamos convencidos de que se trata de uma fatalidade nacional, de algo que nada nem ninguém pode controlar.

– Eu não alinho nesses fatalismos, Carlos!

– Nem eu, Tio Ambrósio! Mas de que vale eu não alinhar? Enquanto eu e vossemecê aqui estamos a indignar-nos com estas coisas, durante esta hora de conversa já deflagraram mais dois incêndios aí em qualquer ponto do país, e já arderam para cima de um cento de hectares do nosso petróleo verde. Esta é que é a realidade nua e crua. Por isso eu quase que estou em seguir a tese do Sanguessuga, que é a tese da conspiração.

– Da conspiração?

– Pois, Tio Ambrósio! O Sanguessuga diz, alto e bom som, que por detrás de tudo isto tem que estar um grupo conspirador, um grupo organizado de malfeitores cuja finalidade principal é a de destruirem a melhor fonte de riqueza nacional, que é a nossa floresta.

– Eu até já ouvi falar em terrorismo incendiário, Carlos!

– Habitualmente onde há fumo, há fogo, Tio Ambrósio! Mas essa do terrorismo, não!

– Eu já não digo nada, Carlos! O coração humano tanto é capaz dos maiores actos de coragem e abnegação, como da vilania e do espírito de destruição.

Estranha contradição, Tio Ambrósio!